Mostrando postagens com marcador mulheres. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mulheres. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Valores mudam. O poder também.

Há uns 15 anos eu estranhei quando uma cliente, gerente de marketing de uma grande empresa de telecom, pediu demissão e para ser professora de ioga. Pensei na coragem que se precisa ter para abrir mão do dinheiro e do status que o cargo dela representava. 

Hoje eu não me impressiono mais. Frequentemente recebo notícias de amigos ou conhecidos que largou um emprego fixo para se dedicar a algo alternativo,  abrir um negócio próprio ou mesmo cuidar dos filhos. Isso sem contar com aqueles que resolveram viajar o mundo, trabalhando remotamente, afinal, isso já é mais do que possível. É lógico que ainda é um comportamento minoritário, provocado por uma parcela específica da nossa sociedade, muito concentrado nos grandes centros e nas classes mais abastadas. 

Mas esta semana tive uma conversa muito interessante com a moça que trabalha na minha casa e que me mostra que este movimento vai demorar menos do que se imagina para acontecer.  Ela reclamava que está cansada de ficar no trânsito todos os dias e que tudo aquilo estava sufocando a vida dela. Me disse que se tivesse a oportunidade de ir embora para um lugar mais calmo,  iria. Como sei que seus pais vieram do campo questionei se ela estava querendo voltar as origens e trilhar o caminho deles. Ela me respondeu, seguramente, que não se tratava disso. Ela quer que a filha estude em uma boa escola, quer ter uma vida urbana, mas hoje já não importa mais para ela entulhar a casa com todo o tipo eletroeletrônicos e eletrodomésticos como fazia antigamente. Também não interessa mais comprar roupas para se diferencias das vizinhas e amigas nos bailes do fim de semana.  Quer uma vida mais simples, com qualidade de vida. Palavras dela. Disse a ela: "então vá atrás disso!”.  Ela riu deixando claro que ainda é um desejo, mas creio que mais dias ou menos dia isso irá acontecer. 

Me lembrei então do nosso debate desta semana no blog. O que é esse desejo dela se não o de ser feliz? E não se importar mais com a vizinhança é um sinal claro de como os valores vão mudando. Os ícones que a apoderavam a partir dos bens materiais já deixou de ser importante para ela e, no futuro, assim será para boa parte das pessoas.


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Poder como verbo auxiliar

Entre as respostas que recebemos sobre o que é poder uma eu não havia entendido. Foi dada por uma leitora frequente do blog que disse: "poder é verbo, por isso ninguém o tem".  Estava tão focada na palavra como substantivo masculino que nem percebi que a mesma palavra define, também, um verbo. Só me dei conta disso no sábado quando lia uma entrevista da Monja Coen em uma revista e numa das suas respostas ela usa o poder como verbo.

Ontem ao ler pela primeira vez a proposta de reflexão da Nany para esta semana entendi a associação das coisas. Poder é escolher. Eu posso fazer, eu posso ajudar, eu posso ir ou eu não posso fazer, ajudar, ir. Eu escolho o caminho que vou fazer na vida. Eu escolho por onde eu vou. Eu escolho ser feliz. E a escolha pressupõe a opção. Você deixa algo ao escolher outra coisa. 

Recentemente passei por isso. Tinha duas opções e precisava me decidir por uma delas rapidamente, porem o assunto envolvia muita coisa para ser definido sem uma boa dose de entendimento. Primeiro usei o método racional, aquele me ensinaram a vida toda. Colocando pós e contras de cada um dos caminhos na balança, a minha cabeça, responsável pelo lado racional me disse: “você tem um empate técnico aqui, pergunte ao seu coração”. Perguntar ao coração não é tarefa fácil. Às vezes acho que sou surda porque não consigo escuta-lo com precisão. Então uma pessoa me disse: confia! Na condição de dúvida existencial em que me encontrava só me restou seguir este conselho. Confei, a situação se resolveu e eu fui em em frente. 


Então comecei a achar que tinha errado na escolha. Parecia que o caminho não era exatamente o que eu queria. Tempos atrás teria sido tomada pelo desespero, pela dor, pelo sofrimento. Mas hoje me sinto feliz. Pareço louca, mas eu explico: percebi que a situação era o próximo passo do meu ser consciente e desperto me dizendo que agora era hora de colocar em prática tudo aquilo para o qual venho me preparando por tanto tempo. Isso significa, em primeiro lugar, não me odiar pela escolha que fiz. Segundo era me acalmar e sentir o que me trouxe aqui. Por fim tenho que confiar que eu posso mudar o caminho a qualquer momento. Nada e nem ninguém pode me prender as escolhas que eu mesma fiz. Isso sim é poder. E um novo tipo de felicidade se abriu para mim.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

o novo poder: ser e viver a potencialidade individual de ser feliz

As respostas à pergunta o que é poder para você? nos confirmou duas linhas de raciocínio que estamos estudando desde que as captamos no Projeto Uno: o poder para e o poder sobre. O poder sobre é o poder como meio de diferenciação; como explicamos nas duas semanas anteriores, este poder se manifesta através da competição, comparação e até, subjugação. Valoriza a hierarquia e tudo aquilo que classifica. Neste tipo de poder o outro é relevante. 

O poder para é entendido como potencial individual. E é nosso tema desta semana porque além de ser um conceito novo, e portanto ainda encontrasse difuso, o que nos exige explicação e repetição; o outro poder, o poder sobre representa de certa maneira a antiga forma de poder, exaustivamente discutida nas últimas décadas, e, acreditamos bastante compreendido. Nosso interesse neste blog é trazer conhecimento e gerar reflexão sobre movimentos humanos recentes ou que ainda não estejam tão nítidos. 

Boa parte das respostas à pergunta que abre este post associa poder com liberdade e autonomia. Liberdade e autonomia para o quê? Para ser feliz, oras! Sim, estamos, como nunca, na busca consciente da tal felicidade. Da geração que está hoje em torno dos cinquenta anos até pré-adolescentes, a grande maioria, quer a felicidade como um direito adquirido. É a grande meta, o grande objetivo.

Os que estamos mais perto dos cinquenta, ainda temos recaídas sobre esse tópico. Fomos criados por uma geração para a qual a maturidade era sinônimo de responsabilidade, e ambos antítese da felicidade. Muito de nós fomos nos libertando dessa crença limitante com muito esforço mas a raiz dela está lá, na espreita, esperando a oportunidade em que baixarmos a guarda. Já os mais jovens, incentivados por nós, buscam a felicidade sem nenhum remorso ou sentimento de culpa. Existe algum outro motivo para viver, do que ser feliz? nos perguntam olhando nos olhos. 

Por isso posso dizer que para quem o poder é para e não sobre, poder pode ser associado tranquilamente à felicidade. Por que fizemos essa associação? Porque sendo a felicidade uma meta - utópica ou não - o grande sonho dourado da sociedade atual está associada a imagens que exigem liberdade e autonomia: ver o pôr do sol, caminhar na praia, viajar, ter mais tempo para..., ser independente, trabalhar no que se gosta, e por ai vai.

O conceito de poder esta mudando, isso nós não temos dúvida. O velho poder - o poder sobre - está cada vez mais abrindo espaço para o poder isonômico, como o definimos na behavior, que na pratica possibilita ser e viver a potencialidade individual de seus sonhos. Para os inovadores que já estão caminhando essa trilha nova, isso significa, poder ser feliz, sem se importar muito com o que o outro pense. 

Vamos refletir e discutir mais sobre isto nesta semana?

Boa semana a todos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Capacidade e transformação


Conforme a semana foi passando algumas respostas a nossa pergunta sobre o que é poder e quem o tem hoje em dia começaram a chegar. Principalmente através do perfil da Nany no Facebook. 

Adorei as respostas! Pois, para mim, ainda muito ligada ao mundo corporativo, muitas vezes, associo poder a algo duro, firme, arrogante, mandatório. O velho poder, eu acho. Mas o que ouvimos foi algo que considero bem mais positivo. Algumas palavras e conceitos apareceram muitas vezes e me chamaram a atenção. Entre eles, as palavras capacidade e transformar. Gosto de ir atrás do significado das palavras quando elas começam a se repetir. É sempre interessante ver a definição do dicionário e expandir o que você acha que entende a respeito daquilo que está sendo falado. 

A palavra capacidade, por exemplo, tem diversos significados, mas como substantivo ligado a uma pessoa, o que aparece mais é aptidão, competência, conhecimento, habilidade, jeito, predisposição. E pasmem….até poder é sinônimo de capacidade! Se trocarmos algumas respostas com a palavra capacidade por predisposição, por exemplo, ficariam assim: predisposição para transformar, predisposição para fazer escolhas assertivas, predisposição para o desapego. Não sei dizer por que, mas a sensação que tenho é que predisposição é uma boa palavra para definir que tem um novo tipo de poder. 

transformar tem um, entre tantos significados, que é lindo: “dar uma nova forma a alguma coisa”. Ter poder é dar uma nova forma a alguma coisa. Adoro este olhar! 

Sobre conceito apareceu que ter poder é ser feliz, não se deixar levar pelos outros, fazer o que se quer, não se levar por modismos para ser aceito, gerar algo positivo. Dois outros pontos interessantes: algumas respostas estavam associados a influência em redes sociais e gestos instantâneos com consequências profundas. 

Continuo assimilando tudo isso, mas algo dentro de mim diz que tudo agora vai mudar mais rápido do que em outros tempos. É bom ter predisposição para seguir e transformar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Poder é algo que se sente ou que se tem?


Confesso que até hoje de manhã eu ainda não tinha uma única história para ilustrar ou responder a pergunta que a Nany lançou aqui no blog esta semana. Nós não temos a maior audiência do mundo, mas sempre tem um ou outro que interage com o tema. Desta vez nada aconteceu. A pergunta o que é poder para você e quem você conhece que tem poder continuava sem resposta. 

Eu me alimento das histórias que ouço no meu dia a dia e, apesar disso, desta vez, também nada tinha para responder, muito menos para contar. Resolvi ir ao salão de beleza de uma amiga, onde sempre encontro pessoas que lêem o blog e normalmente acontece um bate-papo sobre o assunto que estamos abordando na semana. Quem sabe, com sorte, uma boa conversa de salão ajudaria. De fato não foi preciso dar mais do que um ou dois passos porta adentro que uma cliente me cumprimentou e me falou sobre o assunto poder. Ela me disse que não respondeu porque não entendeu. "Tem poder quem é poderoso”, brincou.

Não precisou de muito tempo já éramos 4 ou 5 mulheres falando sobre o tema. Mulherada reunida é bom porque qualquer assunto vira debate! Umas falavam que nós, mulheres, somos poderosas. Uma moça que entrou na conversa por tabela, mas que nunca leu o blog, disse que o chefe dela tinha muito poder. Até uma menina de 11 anos, que sempre encontro lá fazendo a unha e que é autora de dois blogs (sim, ela é blogueira com esta idade), me disse que os pais dela são poderosos. Perguntei o motivo e ela não soube responder ao certo. Ninguém soube. Falavam sobre liderança, dinheiro, posição, subjulgação até. Mas não sabiam se o motivo para o poder das pessoas citadas eram aqueles.


Entendi que o conceito do poder isonômico é tão novo quanto o poder que subjulga é velho. A sensação que tive é que ninguém sabe mais o significado e o verdadeiro valor da palavra poder. Pelo que tenho conversado com a Nany isso parece ser bom, mas pode ficar melhor.

Quando fiquei sozinha no lavatório me dei conta que ainda não tinha uma história para contar. Já com um certo desespero cheguei até a cogitar em escrever que tem poder quem tem tempo, pois eu estava totalmente atrasada para publicação de hoje e nada ainda me ocorria. 

Mas aí algo caiu em minhas mãos: a recepcionista trouxe para eu ler, em primeira mão, a revista Claudia de setembro que haviam acabado de entregar. Resolvi dar uma folheada meio sem interesse e acabei caindo nas três primerias colunistas da revista. O engraçado é que todas tratavam do mesmo assunto, em suas visões bem diferentes. Quem me deu a luz mesmo foi a Danuza Leão. A coluna dela falava sobre uma brincadeira entre ela e os amigos que serve para passar o tempo nos encontros de domingo: cada um deles tinha que falar dos melhores momentos que haviam passado na vida. Dito isso e aquilo, lá pelas tantas ela descreve sobre uma viagem que fez a Londres e que poderia ter sido horrível, pois ela havia esquecido o celular em Paris. Reproduzo abaixo o trecho que me inspirou:

“Relaxei e me dei conta de que ninguém no mundo inteiro sabia onde eu estava. Nem em que país, nem em que cidade, nem em que hotel. Eu estava fora do alcance de tudo e todos, absolutamente incomunicável. Nada poderia me atingir, eu pensei e, em seguida me senti livre, livre como nunca havia me sentido - e olha que não sou nada presa às chamadas convenções. Foi tamanha a felicidade que experimentei - não, a palavra felicidade não é suficiente. Foi como uma comunicação profunda comigo mesma, uma liberdade plena e total de existir, sem depender de nada nem de ninguém, uma sensação de poder completo, no mais alto dos níveis." 


Compreendi então que esta era a história: ainda reagimos tanto aos padrões que temos que estar bem distante deles para, de certa forma, sentir este novo tipo de poder. Aos poucos, eu acredito, todos nós vamos compreendendo e entrando em contato com um novo mundo e assim, vai tudo se modificando. Não importa o tempo que se leve para novamente entendermos o que é poder e quem tem poder. O que importa é estar atento para as novas possibilidades que isso nos traz. 


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

É possível respeitar sem aceitar?

Uma vez estava participando de uma conversa na piscina do meu prédio, mais como ouvinte do que como participante, na verdade. Uma vizinha contava a história da filha da amiga do parente e dizia que a menina havia largado toda a vida boa de princesa na casa dos pais aqui em São Paulo para ir morar com um funkeiro carioca. “Foi morar no morro" , ela dizia abismada. 

Os outros participantes expressavam sua opinião, alguns mais a favor da liberdade de escolha da menina e outros radicalmente contra. De tudo que ouvi, duas frases não sairam da minha memória. A primeira dita pela própria narradora da história: “Se fosse minha filha eu respeitaria a decisão dela, pois amor de mãe é incondicional, mas dentro do meu coração eu não aceitaria jamais”.  A outra frase, vinda de outra vizinha que tem duas filhas, era “Eu dou todo o apoio, desde que não seja com as minhas filhas”

Na época, pelo que me lembro, eu as julguei, pois achei que elas estavam usando a habitual lei do "dois pesos e duas medidas”. Pensando bem agora e avaliando nosso tema a respeito da isonomia fico na dúvida de quantos de nós, pobres mortais, não fazemos em assuntos especifícios o mesmo que elas fizeram aquele dia. Ou pior: quantas vezes não dizemos que aceitamos os outros e, principalmente suas diferenças, e saímos por aí orgulhosos por sermos pessoas evoluídas, maduras, capazes de tolerar qualquer tipo de diferença. Como disse Jesus Cristo, na minha opinião, o primeiro e mais forte propagador da verdadeira tolerância e aceitação: "que atire a primeira pedra quem nunca errou"

Escrever sobre os mais diversos Movimentos Humanos apontados nas pesquisas da Behavior me faz aprender muito sobre mim mesma, meus relacionamentos, minhas forma de agir. A cada passo que dou para desenvolver os textos, mais e mais portas vão se abrindo e tudo fica mais claro - sem dúvida - mas também mais exposto. É surpreendente, por exemplo, me ver diante desta verdade: quantas vezes não levantei bandeiras de pessoas e pensamentos diferentes, mas que no fundo não passavam de um discurso semelhante ao das minhas vizinhas e colegas de piscina? Respeito, mas não aceito foi praticado por mim centenas de vezes. Milhares de vezes!  E continuará sendo, afinal, a consciência do fato é sempre e apenas o primeiro passo. 

Aceitar o outro exatamente como ele é, amá-lo e respeitá-lo  de forma verdadeira e não apenas como exercício de gradiosidade egóica é tão poderoso quanto difícil. Mas é maravilhosa a descoberta e por isso resolvi compartilhar com vocês, acreditando que o exemplo sempre mexe com as pessoas que estão abertas a caminhar também. Deixo aqui duas reflexões filosóficas que li durante o momento em que estudava para fazer este texto e que me ajudaram a ir mais a fundo no tema e em mim mesma. Que este final de semana seja feito para colocar em prática todos os aprendizados.

(…)não bastaria evitar a humilhação dos outros. É preciso também respeitá-los – e respeitá-los precisamente na sua alteridade, nas suas preferências, no seu direito de ter preferências. É preciso honrar a alteridade do outro, a estranheza no estranho, lembrando (...) que o único é universal, que ser diferente é que nos faz semelhantes uns aos outros e que eu só posso respeitar a minha própria diferença respeitando a diferença do outro. (Zygmunt Bauman)

Se os homens não fossem iguais, não poderiam entender-se. Por outro lado, se não fossem dife- rentes, não precisariam nem da palavra, nem da ação para se fazerem entender. Ruídos seriam suficientes para a comunicação de necessidades idênticas e imediatas. (Hannah Arendt)

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Festa das Cores!

Quando estava procurando escola para meu filho em São Paulo, 13 anos atrás, fiquei apaixonada por uma delas, depois que ouvi da diretora as seguintes palavras: 

“Não tratamos todos como iguais. Cada indivíduo é diferente e nós identificamos essas diferenças e fazemos com que eles se desenvolvam a partir dos seus próprios talentos e habilidades. Mas temos regras, limites e um plano de estudo que deve ser seguido. Trata-se de um trabalho árduo e por isso as turmas são pequenas”.

Ele estudou lá 5 anos. Quando passou da pré-escola para o ensino fundamental houve uma celebração. Não uma formatura da pré-escola como é comum na escolas atuais. O que teve foi o que eles chamam de Festa das Cores. Cada criança deveria escolher uma cor e naquele dia ela e sua família deveriam comparecer a festa com a cor escolhida. O palco era uma arena que foi montada no pátio da escola que é de “chão batido”. Olhando para a platéia você entendia porque a chamavam de festa das cores. As crianças escolhiam se queriam dançar, cantar, recitar poesias ou tocar algum instrumento e ensaiaram durante algumas semanas. Não houve uma medalha para o aluno mais brilhante, nem uma menção a nada que fosse maior ou melhor. Isso simplesmente não existia lá. Houve um grande show, harmônico e emocionante. Os professores não fizeram o tipo “faça o que seu mestre mandar” na frente da turma. Eles tocavam, dançavam e cantavam juntos e integrados aos alunos. Nunca na minha vida fui a um evento mais emocionante. Não apenas por ter sido algo relacionado ao meu filho, mas também por ter compreendido, naquele momento, cada palavra do que a diretora havia me dito anos atrás e por me sentir grata em poder vivenciar este aprendizado. 

Quando ele resolveu mudar de escola fiquei chateada porque, para mim, aquele era o lugar perfeito para a educação dele. Eu queria ter estudado lá! Mas foi a própria escola que me ensinou a respeitar o direito do meu filho de querer algo diferente do que eu gostaria. Ele mudou para uma escola bem mais tradicional e este ano termina o ensino médio lá. Foi uma ótima escolha para ele, afinal. Mas certamente os anos passados na escola anterior fez a base para ele ser a pessoa que é hoje. Um homem, moço, que entende e aceita o que é diferente dele. 

Cada vez que  me conecto com o conceito de isonomia, colocado pelo Projeto Uno no Movimentos Humanos me vem a cabeça esta Escola e tudo que ela fez pelo meu filho. O olhar sob o indivíduo como um ser único, não apenas como um número impresso numa chamada escolar fez com que eu entendesse, claramente, o que é esta tal isonomia e como o mundo pode ser cada vez mais colorido se conseguirmos  introduzir este conceito em nossas vidas.

E assim, será.



segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Isonomia sim. Igualdade nem sempre.

Quando escolhemos qual nome dar ao Movimento Humano ligado ao Novo Poder, a primeira palavra que veio foi Poder Igualitário. Tem se falado muito em igualdade numa tentativa de diminuir as diferenças mas aprendi há muitos anos, que a igualdade pode encobrir a não aceitação das diferenças.

Eu não deveria pensar que todos são iguais - no sentido de similitude - para respeitar. Eu devo respeitar todos, inclusive os diferentes. Posso não querer conviver e muito menos concordar; inclusive posso expressar meu descontentamento ou minha discordância mas cada um tem o direito de ser, agir e pensar como quiser dentro da lei aprovada pela maioria - pelo menos numa democracia.  

Por outro lado, tampouco acredito na igualdade no sentido estrito da palavra, porque cada ser humano é diferente, tem sua própria história, suas alegrias e suas dores. Evidente que isso não justifica atitudes negativas, raivosas, que fazem mal, por isso considero que a liberdade de ser como se quiser tem que estar subordinada a lei que, queiramos ou não, rege o país que escolhemos viver.

Prefiro o termo isonomia a igualdade porque seu sentido é de "igualdade de todos perante a lei". Acredito que isso seja o que a maioria quer dizer quando diz igualdade.  Parece um jogo de palavras mas entendermos o sentido da isonomia, ajuda a compreender o Novo Poder que começa a se configurar nas pequenas atitudes e escolhas das pessoas comuns.

Quando penso que o novo poder é um Poder Isonômico, significa que a mudança profunda está exatamente no respeito e valorização às diferenças de forma igualitária. É uma mudança de raciocínio que sei, irá levar bons anos para se consolidar. Ainda queremos que todos pensem como a gente, que nossa verdade seja A verdade. Que nossa raça, escolhas, nacionalidade, gênero, etc. sejam os melhores. Enfim, ainda queremos vencer mesmo que seja nos campo das idéias como se tudo fosse uma guerra. A nossa vitória, ainda está atrelada a um vencido. Isso aplaca a insegurança da escolha e afirma que nós estamos certos. Perante o status quo.

O Poder Isonômico, precisa cada vez menos, ou nada na sua perfeição, da confirmação do outro. Nele a comparação é menor. Todos estão certos, sob seus pontos de vista. A troca de ideia é uma troca, que alimenta e modifica ambos os lados sem haver ganhador e perdedor. No Poder Isonômico, todos ganham com a troca.

Eu sei que parece utópico, mas pequenos sinais desse movimento já estão fluindo no nosso dia-a-dia e é sobre isto que iremos falar esta semana. 

Boa semana todos!



sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ser exatamente quem somos é a chave que abre esta porta



Acordei hoje com uma "pulga atrás da orelha": apesar da mulher atual ser tudo que ela é hoje (fortona, destemida, batalhadora e todas as características citadas no tema da nossa semana) ainda assim, a maioria de nós, não aprendeu a ter auto-estima. E sem ela....não há solução. 

Não importa se você estudou muito, se rodou o mundo, se é presidente de multinacional, se tem tudo que sempre sonhou. Se o seu coração não está em paz com quem você verdadeiramente é, nada vai funcionar. Auto-estima é coisa delicada. É difícil reconhecer, debaixo de tantas vestimentas e máscara, quem realmente se ama e se reconhece de fato. Sei que os homens também sofrem da mesma coisa - não é um mal feminino, mas a sensação que tenho é que com a mulher este assunto ainda é mais intenso e presente.

Auto-estima, não tenho dúvida, é coisa que começa se estabelecer em casa, na criação. Não é apenas o elogio que leva a auto-estima, mas a honestidade de ser destacar as boas qualidades e não valorizar potencialmente os defeitos.

Aliás…o que é defeito? Fico pensando nisso sempre que vou fazer entrevistas de emprego e me pedem para citar as minhas qualidades e os meus defeitos. Sempre acabo confusa porque, no fundo, acho meus defeitos qualidades e minhas qualidades, muitas vezes, soam como defeitos. Portanto temos que aceitar as pessoas como elas são. 

Se falamos sobre a incrível geração de mulheres que foram criadas para ser tudo que os homens não querem, faço um apelo àqueles que criam seus filhos: os aceitem. Mais importante do que criar mulheres para enfrentar um mundo novo e homens para serem vencedores, nós precisamos muito de seres humanos com a auto-estima equilibrada e, acreditem, os pais são fundamentais para que isso ocorra. 

Fecho a semana inteiramente convencida que mais importante do que ser uma mulher moderna ou um homem contemporâneo, precisamos ser nós mesmos.

Deixo para vocês um vídeo que assisti hoje e que fala deste assunto. Muito interessante. Está em inglês, mas é fácil de entender. A diretora do vídeo pede para as pessoas fazerem coisas como "uma garota". Olha a diferença na reação entre as mulheres adultas e as meninas. Esta atitude das jovens meninas é que não pode sumir ao longo do tempo! É disso que estamos falando!




Um final de semana de muita luz para todos nós.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A prática torna tudo mais fácil. Até mesmo o equilíbrio na relação a dois!

Ontem foi um dia exaustivo para mim - tanto emocional quanto fisicamente. Acordei muito cedo, me preparei para uma entrevista importante e, no meio disso tudo, recebi duas notícias que me abalaram. Além disso eu sabia que teria uma agenda cheia no período até à noite.

Não estava fácil e no meio do dia eu já estava tão cansada que fui tomada por um mau humor sem tamanho. Quem me conhece sabe que dificilmente eu fico mal humorada. Mas sei bem que quando a gente está assim, costuma descontar na pessoa que está mais próxima e tentando te ajudar. Quem estava comigo era o meu companheiro de 8 anos. Ele me acompanhou na entrevista apenas para me dar apoio moral e ficou mais de uma hora passeando pelo shopping a minha espera. Isso porque ele tinha feito um treinamento de trabalho na noite anterior e praticamente não havia dormido. Mesmo assim soltei os cachorros nele. 

À noite, depois de toda agenda cumprida, estava sozinha em casa, e muito chateada por ter brigado com ele. Comecei a refletir: sem dúvida eu não tinha motivos para brigar com ele, mas por outro lado, se ele me conhece bem (e conhece) sabe que eu não sou assim. Então também não devo brigar tanto comigo mesma. Foi só um dia difícil. Respirei fundo e liguei para ele. Sem dramas, nem desculpas pedi. Apenas conversei e ele, vendo que eu estava mais calma, falou comigo calmamente, colocou o ponto de vista dele e nos entendemos. 

Não foi sempre assim. Em outros tempos, nem tão distantes assim, um dia como o de hoje teria gerado um estresse e uma briga que duraria pelo menos uns 4 dias. Ele estaria com cara emburrada, eu me penitenciando por ter sido um “monstro”. Mas a maturidade chegou e isso fez muito bem para a nossa relação. Agora a gente não quer mais ter a razão. Eu não quero mais que ele entenda o quanto a minha vida é dura e como é difícil cumprir todos os meus papéis: de mãe, dona de casa, profissional, amiga e blá blá blá. E ele não que me convencer que o problema é a minha arrogância de mulher moderna. Nos aceitamos e, principalmente, nos amamos, verdadeiramente. Ouvimos o que temos a falar e nos acolhemos. Amanhã pode ser ele que esteja de mau humor e assim, compreendemos que todos têm direito a um dia ruim. Bom mesmo é saber que conseguimos chegar neste equilíbrio. 


A escritora Elizabet Kantor escreveu recentemente um livro entitulado A Fórmula do Amor, onde ela usa as personagens de Jane Austen (autora, entre outras obras, de Orgulho e Preconceito) para explicar as diferenças no 

“vamos usar nossa especialidade natural em relacionamentos para abrir nosso caminho no campo minado das vulnerabilidades de homens e mulheres até um lugar onde ambos possam ser felizes”. 

Isso é um conforto quando colocado verdadeiramente em prática!

terça-feira, 24 de junho de 2014

Mas, afinal, qual é a mulher que o homem quer ter ao seu lado?

Desde a semana passada está circulando pelas redes sociais um texto da Ruth Manus, publicado no Blog do Estadão e que, segundo o próprio jornal, já foi compartilhado por mais de 700 mil pessoas. O assunto o próprio título entrega: "A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer”.  No relato sincero e fiel ela descreve a mulher que ela é que, provavelmente, o incrível número de pessoas que interagiu com o texto, também é. Somos, como temos falado ao longo da existência do projeto Movimentos Humanos, a mulher que ela relata já no início do seu texto: 

“Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.

Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.

Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.

Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.”

Qual mulher não se identifica com ao menos uma ou duas características apresentadas neste descritivo? E lá vamos nós falar novamente sobre os conflitos que se inicia, muitas vezes, por conta do que somos hoje para a sociedade. Ao longo do texto ela expressa o outro lado desta mesma moeda e diz assim: 

"Mas, escuta, alguém  lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar? Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?"

Nós do Movimentos Humanos ficamos felizes quando esta discussão ganha a proporção que este texto tomou, pois é a prova do quanto o ser humano precisa e quer debater o assunto. É desta reflexão que conseguiremos caminhar para frente: entendendo e assegurando o papel da mulher no mundo, mas compreendendo as consequências que impacta a sociedade como um todo, incluindo o próprio feminino.

A solução para encontrar um ponto de equilíbrio entre a mulher que somos hoje e o homem que consegue entender e acompanhar esta mulher só pode passar pelo diálogo, pelo amor e pela boa vontade de todos os nós. Vamos falar sobre este assunto, mais uma vez, esta semana. 

Post do jornal O Estado de São Paulo falando
sobre a crônica que inspirou a discussão da nossa semana



quinta-feira, 29 de maio de 2014

Feliz com o novo todos os dias

Quando penso em alguém que realmente encarou o novo de frente, só me vem a cabeça uma amiga idealizadora de um projeto sobre felicidade e do blog FÊliz com a vida

A Fê, como carinhosamente a chamamos, largou uma promissora carreira em uma agência internacional e resolveu passar um tempo andando pelo mundo pesquisando o tema felicidade. A questão é que para fazer isso acontecer, ela se muda de 3 a 4 meses em média. Às vezes ela SÓ muda de país, mas a maioria das vezes, ela muda, inclusive, de continente. Já deu para perceber que ela lida com o novo praticamente todos os dias, né?


Ela escolheu a Tailândia para o início da sua jornada e, a sua casa, nesta época simplesmente era com o pé na areia e de frente para o paraíso. Todas as pessoas que conhecemos em comum, e que estavam aqui no Brasil, comentavam a mesma coisa: basicamente invejavam a coragem e a nova vida da nossa amiga. Já ela, passava maus bocados para se adaptar, afinal, a grama não era assim tão verde como todos acreditavam. 

Mas ela é uma guerreira e não iria desanimar ou desistir assim tão fácil. Tanto foi assim que, no início deste ano, lançou o desafio dos 100 dias felizes e, durante este período, todos os dias ela lançou uma foto explicando um motivo para ser feliz! 

Realmente uma lição para quem quer ir encontro ao novo, afinal, imagine você ter que se adaptar aos mais diversos tipos de cultura, longe da sua família, do seu país, da sua língua nativa. Imagine mudar e morar em casas diferentes num período tão curto de tempo e, mesmo assim, encontrar 100 motivos para simplesmente ser feliz. 

Isso é a prova de que ir de encontro ao novo, romper com aquilo que não fala mais ao seu coração, só pode fazer bem. Conversei com a Fê hoje e sei que a vida dela não é um mar de rosas. Ela tem medos, anseios e inseguranças. Mas ela não perdeu o sorriso aberto da menina que contratei muitos anos atrás e que já era feliz. Admirável a sua coragem e seu belo projeto. É um exemplo para quem ainda está com receio de colocar o pé no novo.



quarta-feira, 28 de maio de 2014

Confiança para mudar exige apenas um passo

Na última segunda-feira eu fiz uma Oficina de Constelação Corporativa - que nada mais é do que a Constelação Familiar* aplicada ao lado profissional. Confesso que nunca tive uma experiência com esta parte da psicanálise, mas tenho diversos amigos que sempre me falaram muito bem sobre os resultados que ela oferece. Fui mesmo por curiosidade  e acreditando que era uma boa oportunidade para o momento de mudanças profissionais que estou atravessando. O público era bem variado: donos de pequenos negócios, funcionários de grandes empresas, pessoas que haviam sido demitidas, profissionais liberais. 

Quando começamos o trabalho, a facilitadora propôs escolhermos um tema, e um dos participantes sugeriu falarmos sobre autoconfiança. Foi só ela mencionar isso e as pessoas começaram a falar sobre o tema e suas experiências e dificuldades a respeito. Todos, de alguma forma, sentiam que estavam passando por mudanças - internas e externas - que os faziam sentir-se incomodados e pouco confiantes com o futuro. Eu disse isso mesmo: TODOS. Não havia ninguém ali que estava totalmente satisfeito com o que estava fazendo.


O que apareceu com ênfase durante todo o trabalho pode ser resumido da seguinte forma: a auto confiança está ligada a ação, experiência, coragem, conhecimento e desafio. O interessante é que todos concordavam que coragem e ação eram os assuntos mais difíceis de lidar e expressar. Mudar, todos queriam. Estar confiantes para isso, não estavam.


Me lembrei do nosso tema da semana e pedi para falar. Queria contar a experiência que vivi 13 anos atrás quando vim trabalhar em São Paulo. Mudei de emprego, de vida, de cidade. Trouxe meu filho e minha família não estaria mais por perto para ajudar. Por mais difícil que tenha sido, eu confesso que não me lembro das dificuldades. O que me marcou neste momento de transição foi o novo. Conhecer a cidade, fazer amigos, vencer pequenos desafios como encontrar um apartamento legal e aprender a dirigir na cidade. 

Que sensação maravilhosa. Me lembro como se fosse ontem. E é essa sensação que me ajudou, agora, a fazer um novo movimento de novo. Não mudei de cidade, mas mudei de vida. Tive medo? Sim. Tive e tenho. Mas é maravilhosa a sensação de encontrar o novo e me surpreender com tantas novidades. A renovação é uma bênção e só é preciso um primeiro passo para que ela aconteça. Faça isso e, tenho certeza, você vai adorar.

*A “constelação familiar” consiste em um método no qual um cliente apresenta um tema de trabalho e, em seguida, o terapeuta solicita informações factuais sobre a vida de membros de sua família, como mortes precoces, suicídios, assassinatos, doenças graves, casamentos anteriores, número de filhos ou irmãos.
Com base nessas informações, solicita-se ao cliente que escolha entre outros membros do grupo, de preferência estranhos a sua história, alguns para representar membros do grupo familiar ou ele mesmo. Esses representantes são dispostos no espaço de trabalho de forma a representar como o cliente sente que se apresentam as relações entre tais membros. Em seguida, guiado pelas reações desses representantes, pelo conhecimento das "ordens do amor" e pela sua conexão com o sistema familiar do cliente, o terapeuta conduz, quando possível, os representantes até uma imagem de solução onde todos os representantes tenham um lugar e se sintam bem dentro do sistema familiar.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

O limite depende de você.

Há momentos da vida em que aparentemente tudo está certo mas a gente se sente todo errado. As coisas começam a não se encaixar mais. Os lugares que costumavam te animar deixam de ser tão divertidos, as pessoas com quem você sempre se divertia parece que não tem mais graça. Os interesses mudam, porque você mudou e talvez não tenha se dado conta de quanto. Gosto de pensar nesses momentos como um momento de ruptura que abre infinitas oportunidades para nossa vida, nosso futuro. Isso mesmo infinitas; nós que depois vamos restringindo ao fazer escolhas.

Como estamos vivendo o movimento humano de desestruturação esse momento de ruptura está latente na vida das pessoas. Várias vem falar comigo sobre isso. As rupturas mais evidentes geram mudanças que em muitos casos costumam ser traumáticas e difíceis. Para estes, existe um tempo, como se fosse um limbo, em que se é necessário compreender o que realmente aconteceu para poder agir. Por conta de ter falado bastante sobre este tipo de ruptura nos últimos meses, escolhi falar esta semana sobre outro tipo, mais sutil, que vai acontecendo aos poucos. Neste caso há sempre alguns episódios marcantes que vão "rachando" nosso status quo, mas nem sempre são grandes traumas, grandes cortes. É como se fosse um desgaste dos elos que nos unem a uma determinada realidade que com o tempo vai ficando sem brilho até ficar bastante claro que o mundo ao qual estamos inseridos não faz mais sentido. 

Nos meus trabalhos de campo aprendi que esses casos, a pessoa vai se conectando com sua essência, seu sentir, aos poucos; muito mais movida por uma inquietação interna do que por um trauma externo. O trauma externo, entendo, tem o papel de dar um choque para a pessoa acordar de um estado de desconexão profunda consigo mesma. Na ruptura que falo hoje, esse trauma não existe. Pelo menos não dessa forma. Creio que até podem ser pequenos traumas que vão sendo assimilados lentamente e quando nos damos conta, já estamos em outro estado de ser, bem mais integrados conosco mas desintegrados com a realidade que escolhemos anteriormente viver. E ai o desconforto e a desorientação.

Considero este momento um momento mágico, e se feito com bom humor e consciência, até divertido. Imagina você acabar de chegar num novo país ou mundo, se tua imaginação permitir, e nele precisa criar novos elos com todo a liberdade de ser uma pessoa diferente, mas de acordo ao teu sentir. Claro, precisa de coragem, mas como falamos a semana passada, a coragem tem a ver com a confiança, confiança em ti e em acreditar que tudo está certo.

A coragem também pode vir da consciência de saber que momentos como esse acontecem poucas vezes na nossa vida. É de tamanha potencialidade esse momento, que no mínimo é triste quando não o aproveitamos. Um dos nossos objetivos esta semana é te ajudar, te encorajar, para que você viva tudo o que você tem a viver se estiver atravessando essa fase. Lembra sempre que nesses momentos únicos da nossa vida, a frase o céu é o limite, nunca foi tão verdadeira.

boa semana, e coragem!  

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Nelson Rodrigues entendeu tudo

Tempos atrás fui com uma amiga buscar uma encomenda na casa de uma senhora (amiga das antigas da sua mãe). Era um sábado, logo após o almoço, e a vila simpática em que morava estava um silêncio só.  Ela  veio nos receber feliz e amorosa, mas falando bem baixinho, quase sussurrando. 

Quando entramos ela fez sinal para falarmos como ela, pois "ele" estava dormindo. Intuí que "ele" era um netinho e comecei a falar bem baixinho, afinal, não queria acordar o pequeno. Sentamos na sala e entre uma conversa e outra, ela falava algo "dele". 

Ele anda tão fraquinho. Ele não come mais como antigamente. Ele... ah...coitadinho

Comecei a ficar com o coração apertado pensando se tratar de uma criança doentinha. Então "ele acordou". Veio andando sozinho do quarto. Mas para minha surpresa "ele" era o marido dela! 

Ela, aliás, enquanto eu me surpreendia, já estava na cozinha preparando um café, para ele, claro. Enquanto isso o senhor atravessou a sala arrastando os chinelos, nos cumprimentou à distância, sentou-se confortavelmente numa poltrona e ligou a TV. Parecia um rei em seu trono. 

Ela serviu o café. Ele perguntou se não tinha bolo. Ela mais do que depressa lhe trouxe uma generosa fatia de bolo. Quando percebeu que ele havia se acalmado, voltou para a sala e gentilmente nos ofereceu café e bolo. Mas já não era mais aquela senhora falante e relaxada. Uma tensão se estabeleceu no ar e a visita encerrou-se rapidamente.

Sempre quando lembro desta história penso que poderia se tratar de uma peça de Nelson Rodrigues. Mas hoje, depois de uma longa conversa com a Nany, eu entendi que o comportamento deste casal não é exatamente um conto e sim, uma realidade bem comum. Sabe-se lá por que, mas nós mulheres, tendemos a apoiar esta situação do homem tão fraquinho, desamparado, tão coitadinho. E não acontece só com casais mais velhos não. Nunca havia me dado conta até hoje, mas é muito comum mesmo, inclusive com casais mais jovens. Tenho amigas que tratam os seus maridos como filhos frágeis. Sempre existe um motivo.

Coitado! trabalha tão longe. Coitado! está doente. Coitado! sofreu tanto naquela firma. Tadinho! Ele sai tão cedo de casa que eu nem me chateio de acordou UMA HORA antes que ele para fazer uma comidinha para ele levar.

Não estou falando de mulheres dependentes não. Estou narrando casos de mulheres fortes e decididas, porém dispostas a fazer concessões de todos os tipos em nome do companheiro tão "coitadinho". Não é à toa que "concessão" é um substantivo feminino!

Fico confusa com isso. Nós reclamamos tanto dos homens bobões, sem atitudes, incapazes e, no entanto, o achamos coitadinhos? Estranho, não? Será que não é hora de deixarmos nossos rapazes caminharem com mais autonomia e atitude? 

Fiquei aqui pensando que seria legal se o senhor acordasse um dia desses e, simplesmente, a amiga da minha amiga tivesse se evaporado, sem deixar nem um bilhetinho explicando o sumiço. Será que ele faria o seu próprio café? Bolo eu tenho quase certeza que não faria. Nelson Rodrigues, eu creio, iria divertir-se com essa virada de mesa da senhora. E eu também!

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Poupamos homens por que os consideramos mais fracos? Reflexões sobre a educação de nossos filhos

Sem dúvida temos falado nas últimas semanas sobre temas espinhosos para os relacionamentos amorosos mulher-homem. O objetivo é gerar reflexão sobre nosso comportamento e compreender que uma crise na relação tem responsabilidade em ambos. Um comportamento alimenta o outro. Para mudar, é necessário alterar o que pertence ao nosso comportamento que alimenta o circuito negativo do casal. Não adianta olhar somente para o que o outro está fazendo. É mais produtivo e saudável olhar e refletir sobre a única coisa que temos controle: nosso comportamento.

Esta semana vamos aprofundar no tema da semana passada: a atitude masculina em relação a não assumir suas responsabilidades, em muitos casos, ancorado na quase adolescente atitude de querer fazer o gosta e não no que que deve. De onde vem esta atitude?

Compreendemos durante os Projetos Mulheres e Homens conduzido pela Behavior que existem dois principais motivos para isso acontecer: o primeiro, mais antigo e profundo é que os homens são criados para terem direitos "especiais". Há uma crença que nos invade e permanece, que o homem ocupa - e merece ocupar - um lugar de destaque na sociedade. Por mais que nós mulheres, lutemos contra isso nas nossas relações afetivas, tenho entendido que na hora que somos mães transmitimos essa crença mesmo que sem dar-nos conta. Por que criamos filhos homens diferentes das filhas mulheres? Por que poupamos nossos filhos dos trabalhos e das obrigações de pertencer a uma família? Por que incentivamos na menina o desejo de superação e responsabilidade e com os homens somos mais condescendentes? Por que, ainda hoje?

O outro motivo é uma crença tão daninha quanto a outra, que considera o homem mais fraco que as mulheres, mais frágil. Todos podem dizer que "imagina!" mas pense bem: porque poupamos o homem dos trabalhos chatos, pesados, sensíveis, difíceis? Porque as mulheres podem encarar vários desafios e dar conta e esses mesmos desafios o evitamos para os homens?

Considero que há uma certa desconfiança que o homem irá dar conta. Essa crença vem desde a criação dos pais. Pais sempre poupam e protegem o filho mais fraco. Mesmo que inconscientemente. É um instinto natural de preservação, mas peço para refletir sob a seguinte ótica: essa proteção reforça a crença em todo o núcleo familiar da fraqueza do poupado. Ninguém fala disso, mas todos no fundo no coração, sentem. Criar um filho confirmando sua franqueza, ainda pelos próprios pais, podem ter certeza que irá definir boa parte de seu destino.

Muitos filhos homens são criados sob a sina do ser o mais fraco em relação as irmãs. Eles ganham na ilusão do ego a sua base de autoestima. Tornam-se vaidosos e condescendentes consigo mesmos. Se acham reis de um reino ilusório e vivem a vida achando que a vida lhes deve e que devem fazer só o que gostam. 

Por verem quanto os pais permitem tudo - ou quase tudo deles - confirmando sua fraqueza - vão assim alimentando a falsidade de sua identidade. A vaidade neste caso, no fundo, entendo eu, guarda uma profunda dor de se crer o pior - reforçado pelos próprios pais e o núcleo familiar mais próximo.

Aos fracos deveríamos dar vitaminas e expor, com cuidado, mas consistentemente. Ir empurrando à vida, para ele próprio ganhar autoestima e autoconfiança verdadeira, embasada no seu valor. Confie no seu filho e deixe ele voar. Deixe ele ter os arranhões que a vida dá mas que são importantes para conseguirmos nos saber fortes e vencedores. Faça ele assumir suas responsabilidades e pagar os preço de suas escolhas. Enfim, deixe ele crescer. 

Há algum tempo vi no meu jardim uma cena que me trouxe claramente essa reflexão: um passarinho muito pequeno chegou numa árvore através de um vôo descontrolado e incerto. Ele se balançava no galho com notável instabilidade. Logo em seguida chegou a mãe. Eles piavam sem parar. A mãe balançava o corpo como mostrando ao filhote e se lançava no ar. O filhote balançava mas não se soltava do galho. A mãe voltava e fazia tudo de novo. Foi assim umas três, quatro vezes e o filhote nada de voar. Até que na última vez ela fez o movimento de sempre e esperou, ao ver que o filho só se balançava e não soltava as garras do galho, sem duvidar, o empurrou. O filhote saiu voando quase que em queda livre. A mãe ao lado acompanhava a queda piando. Até que perto do chão - bem perto para meu desespero - ele conseguiu bater as asas firmemente e subir em direção à liberdade. 

O filhote poderia ter morrido na queda, mas a mãe sabe que se ele não aprender a voar, ele irá morrer de qualquer maneira rapidamente. Isso, para mim, é uma grande demonstração de amor. Confie no seu filho, no seu homem. Faça isso por ele e por você.

Boa semana, boa Páscoa para todos. Que este renascimento de Cristo, independente da sua crença religiosa, traga o fortalecimento do amor incondicional em você.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Pressão, sim. Surto não.

Ontem eu assisti a dois programas e, por coincidência (ou não), vi cenas de como homens e mulheres lidam com a pressão de formas tão diferente. 

No primeiro programa, chamado, Tudo por Um Lar, que estreou ontem na Discovery Home&Health, duplas de decoradores amadores têm o desafio de decorar uma casa enorme. A cada novo episódio, uma peça da casa tem que ser arrumada. Ontem o desafio era fazer a suíte principal usando o tema glamour e eles tinha 15 horas para fazer isso (incluindo pensar no projeto e fazer todas as compras necessárias). Uma das duplas, formada por um homem e uma mulher, começaram o trabalho de forma harmônica enquanto pensaram o projeto e foram as compras. Mas na hora de colocar a mão na massa ficou bem claro que ia pegar fogo. Enquanto a moça fazia tudo muito rápido e estava bem focada, o rapaz era mais lento e disperso. Lá pelas tantas as menina simplesmente perdeu a paciência e começou a gritar loucamente com o menino que apenas ria e dizia: "se perder tempo em discutir com você agora, não terminamos o quarto". E quanto mais ele ria e se mostrava indiferente, mais ela se alterava a ponto de perder completamente a razão. Para quem assistia ao programa, parecia mesmo uma pessoa desequilibrada. O interessante é que o projeto deles foi um dos que os jurados mais gostaram e, realmente, até para quem não entende nada sobre o assunto como eu, deu para ver que o quarto ficou um arraso. 

No outro programa, também da Discovery H&H, chamado Irmãos à Obra, um casal está a procura de uma casa para comprar. Os irmãos (gêmeos) que dão nome ao programa, vão em busca de uma casa para eles. Um deles é corretor e o outro empreiteiro. A intenção é convencer o casal interessado que a casa dos sonhos só é possível se comprar um imóvel que precisa de reforma. O casal do programa de ontem eram judeus e uma das exigências é que a casa tivesse uma cozinha kosher (com duas bancadas para manipular laticínios em uma e carne em outra, pois para os judeus estas duas categorias de alimentos não podem ser misturadas). Eles eram muito simpáticos e super tranquilos. Um casal bem amável e diferente dos outros programas que já assisti, onde as pessoas eram bem mais enérgicas. Apesar do estilo doce, após negociada a casa e iniciada a reforma, descobre-se canos na sala da casa, justamente onde eles quebraram uma parede. É um grande problema, mas Jonathan, o irmão empreiteiro, acostumado com isso, não dá muita bola para o assunto. O marido também parece lidar bem com a situação, tentando achar um caminho alternativo. A mulher, no entanto, fica bem transtornada, estressada, querendo explicações loucas e pressionando muito - o que pode atrasar a obra já que é hora de resolver e não de discutir por que ninguém viu isso antes.


Achei engraçado porque em ambos os casos vi claramente as situações que estamos abordando esta semana: homens divertindo-se "irritantemente" durante o percurso e mulheres estressadas. O ineterssante é que, em  ambos os casos, as mulheres tinham razão nas suas colocações, mas a forma raivosa como reagiram é que atrapalhou tudo. 

Me vez pensar que este lado mais sério e firme da mulher não é de todo mal. Pelo contrário! Muitas vezes é isso que faz a vida de um casal andar, por exemplo. O que precisamos, me parece, é apenas nos acalmar, respirar fundo, tomar um chazinho e reagir com um pouco mais de discernimento. Sei que é difícil e que muitas vezes os meninos nos deixam loucas com suas reações de tranquilidade absoluta. Mas pensa bem: o estresse gera toxinas que fazem mal e nos deixam prejudicadas até fisicamente. Então não vale a pena perder a nossa beleza, não é mesmo?

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Mãe é chata: manda tomar banho. Pai é legal: joga video game.

Uma das frases que mais ouvi do meu pai a vida toda foi: “não sofra por antecipação”. Às vezes eu retrucava dizendo: “então me ensina a fazer isso”. Ele dava uma risadinha e dizia: “simplesmente não sofra”. 

No fundo eu tenho a impressão que ele sabia que era impossível ensinar isso para uma mulher. Pensando sobre o assunto, e olhando alguns exemplos do dia a dia, me vem a cabeça que juntar seriedade com leveza é coisa que não veio mesmo no DNA feminino. Eu não tenho nenhum embasamento científico para dizer isso, mas tenho fatos. Normalmente nós, mulheres, encaramos tudo com muita seriedade. No trabalho então…é quase que um pecado corporativo para nós misturarmos o momento de trabalhar com diversão. Não estou falando que a gente não dê risada e não se divirta, mas no fundo, a gente gosta de separar as coisas. É como se para nós tudo tivesse a sua hora. Hora de brincar é de brincar. De trabalhar é de trabalhar e assim por diante.

Isso me faz lembrar um ponto levantado no Projeto Homens. O homem contemporâneo tem estado meio confuso sobre seu papel e um dos lugares onde ele agora encontra um certo canal para ser útil é como pai. Isso porque ele consegue entrar no universo infantil e brincar com seus filhos muito mais do que as mulheres. Fala a verdade, especialmente se você for mãe: brincar com o filho você até brinca, mas não é exatamente aquela coisa de soltar a imaginação, se jogar no chão e se deixar levar. 

Tenho feito algumas pesquisas a respeito, em função de um possível negócio que pretendo lançar e conversando com as mães, elas sempre me dizem que gostam de brincar de pintar, montar kits e coisas assim com os filhos. Ou então ir ao teatro, shows, parques…essas coisas. Poucas mães conseguem realmente se entregar, na verdade. Porque, afinal,  mãe é mãe. É coisa séria. É isso que eu escuto elas falarem ao argumentar sobre o que gostam de fazer com seus filhos.

Ainda não se convenceu? Então me diga: quantas mulheres, na faixa de 30 anos ou mais, curtem video game. Poucas. Bem poucas. Meninas mais novas, amam. Mas mulheres, não gostam. Agora te pergunto: quantos homens na mesma faixa de idade adoram video games? Até os que não têm filhos amam. 

Mas e daí? E daí que a gente deveria começar a praticar um pouco mais a mistura de seriedade e diversão. Rir de si mesma. Descontrair no meio de uma apresentação séria. Dar uns gritos de vez em quando brincando com os filhos de pega-pega dentro de casa. Você vai continuar sendo respeitada e séria do mesmo jeito. Tenha certeza disso! 


No fim das contas, eu fico me perguntando: por que mesmo a gente tem que ficar com esse rótulo de ranzinza e chata enquanto os meninos se divertem?