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terça-feira, 27 de agosto de 2013

Um casal num jardim sem flor


Senhora e Senhor, Titãs




Iniciei o texto já com a trilha sonora porque a música contextualiza o tema melhor do que qualquer história que eu venha contar. Para quem não quis clicar no vídeo, alguns versos da canção:


Veja só o que restou
Do nosso caso de amor
Uma casa com varanda
E um jardim que não dá flor

Uma geladeira cheia de comida sem sabor
Um programa interminável diante do televisor
Uma lâmpada queimada no lustre do corredor
O pensamento distante para evitar a dor

Para falar a verdade eu estava entre dois ou três assuntos para refletirmos hoje, mas nenhum batendo forte no meu coração. Foi quando uma cena me chamou a atenção: no restaurante, mesa ao lado da minha, um casal de meia idade almoçava em silêncio. Nenhuma só palavra foi trocada durante todo o tempo em que ficaram ali. Poderia ser cumplicidade, mas não pareceu. O homem mexia no telefone, a mulher pairava o olhar para o nada. A música do Titãs me invadiu.

Fiquei pensando se todos os casais estão fadados a chegar nesta fase do desinteresse total. Será que alguém chama isso de companheirismo? Dizem que com o tempo o amor se transforma em outra coisa e, de repente, o seu marido (sua esposa) se torna um amigo, um companheiro, muito mais do que um amante. Que linha tênue é essa que separa a indiferença da cumplicidade, afinal? Meu primeiro casamento não durou muito para ter uma referência. O atual não é exatamente convencional (moramos em casa separadas – ou pode-se dizer que namoramos há 8 anos). Aprendi com o tempo a não ser radical e a “nunca dizer nunca”, mas me causa arrepios pensar em passar 10 minutos ignorando e sendo ignorada por alguém que convive comigo – quanto mais anos!  Veja que usei o verbo ignorar. Não falei em silêncio. Ah....essa tal linha tênue de novo por aqui!

Ando interessada nos casais de meia idade. Mulheres um pouco mais velhas do que eu, talvez um geração anterior, que já trilharam caminhos parecidos com os meus: boa formação, trabalham fora, os filhos cresceram e os netinhos começam a chegar. Eu não consigo acreditar que essas mulheres ficaram num casamento infeliz por medo, conformismo, pelos filhos. Os homens eu consigo, mas as mulheres? Posso não querer acreditar, mas sei que é provável que ficaram. Até hoje ficam! Minha geração fica. Me entristeço com isso.

Mas me entristeço mais pelos casais que se amam e se conformaram com a indiferença. Uma vez uma terapeuta me disse que um casal deveria assinar um contrato falando, entre outras coisas, que eles iriam se provocar mutuamente até o fim dos seus dias. Não apenas no sentido sexual, mas em todos os sentidos. É dever um do outro: dar cutucões, acordar o outro para a vida, mostrar que existe pulso e que a vida não acabou apenas porque restaram só os dois em casa. Existe muito mais do que o olhar tão desbotado que já não distingue cor. Mas precisa de atitude para isso acontecer. Como tudo na vida.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Existe mãe em tempo parcial?


Acho engraçado quando escuto (ou leio) a frase: optei ser mãe em tempo integral. Obviamente eu sei do que se trata, mas sempre me dá vontade de perguntar se alguma mulher já decidiu ser mãe em tempo parcial.  Já me vi criando alguns diálogos imaginários, sem noção, do tipo:
- Ah, você é mãe parcial?
 - Sim, sim. Resolvi que o melhor para mim é ter filhos apenas de segunda à sexta das 9h às 18h!


De novo: a expressão significa que uma mulher abriu mão de algo (emprego, estudos, etc) para cuidar do(s) filho(s) o tempo todo. Nada contra as mulheres que fizeram esta opção. Tenho muitas amigas que fizeram isso e estão ótimas! Não poderiam ter acertado mais na escolha. O que quero dizer é que me divirto com a expressão. Embora saiba que por trás desta decisão tenha algo muito sério e é sobre isso que gostaria de dialogar hoje. Primeiro porque optar é renunciar, portanto, se uma mulher abriu mão de algo em função da maternidade, de fato, foi uma grande decisão. Renunciar não é fácil. Necessita uma certa dose de coragem e de desapego. Já ouvi mulheres dizendo que têm medo de ficar em casa e “emburrecer” ou ter foco em apenas um assunto: o universo infantil.  

Além disso, muitas vezes, significa perdas financeiras que, ao menos que a mulher seja herdeira de uma fortuna, podem diminuir o padrão familiar, ou ainda, torná-la dependente financeira de outra pessoa (nem vamos entrar na discussão de que esta pessoa é o marido – prefiro deixar o assunto aberto e abrangente, se me permitem).

Pois muito bem, mas onde eu quero chegar? Quero chegar na explicação. Uma mulher que abre mão, renuncia, opta pela maternidade integral normalmente está se explicando sobre as razões que a levaram a isso. E sempre parecem ter que mostrar sua história como um conto de fadas: como se cuidar de filhos só tivesse o lado bom. Convenhamos: nem tudo é um mar de rosas. Mas e daí? Por que  você tem que explicar para as amigas, conhecidos, para o padeiro e até começar a escrever um blog sobre o assunto?  Acho que já deu para entender, né? Por que nos sentimos tão obrigadas a fazer parte de um padrão?

Sempre disse, e reafirmo, que faria do meu filho um ser pior se tivesse abdicado da minha carreira. A verdade é que a minha paixão pelo que faço é tão parte de mim que se tivesse que renunciar a isso seria uma pessoa frustrada. E, honestamente, o que é melhor: uma mãe frustrada "full time" ou uma mãe que não fica em casa o tempo todo, mas se sente realizada por produzir? Eu, ao menos, preferi optar pela realização. Meu filho não parece ter tido problemas com isso, muito pelo contrário. Mas todas as recíprocas são verdadeiras: trabalhar infeliz é certamente a pior demonstração que podemos passar para um filho a respeito de trabalho. Assim como não há nada de errado em se ter vocação para ser mãe e ponto final. 

Tenho insistido no mesmo ponto: o que importa é a sua verdade. Não existe regra. Nem certo ou errado quando se trata de propósito de vida. O importante é descobri-lo e ser feliz.  Seu filho e o mundo agradecem.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Filhos hoje, homens amanhã


Um dos pontos calorosos nas muitas conversas que fazemos, vida afora, sobre os Projetos que compõem os Movimentos Humanos fala sobre como as mulheres criam seus filhos homens. A reflexão é sempre enriquecedora.







Partimos de uma valiosa constatação : as mulheres acham a maioria dos homens fracos, despreparados, sem vigor para correr atrás do que querem. Podemos dizer que a grande maioria acha os homens, digamos, uns bananas. É muito interessante ver as discussões calorosas que se seguem a respeito do assunto. Na sequência é colocada uma reflexão profunda também levantada pelo Projeto: “quem cria os homens bananas são suas mães, ou seja, mulheres.” A calorosa discussão anterior, em segundos, se transforma num momento de introspecção onde as mulheres primeiro se surpreendem, depois assimilam e, enfim, se dão conta das suas próprias responsabilidades sobre o assunto.É um momento muito bonito. Onde todas são obrigadas, conscientes ou não, a lidar com algo que realmente incomoda.  Minutos depois, elas já assimilaram a questão e recomeçam a discutir o tema, contando histórias que afirmam este ponto. Muitas contam como a mãe a criou com firmeza para vencer, conquistar, correr atrás, enquanto o filho homem foi mais protegido e embalado pela mesma mãe. Interessante, não?

Esta semana conheci uma história lindíssima que fala sobre isso. Trata-se de um ritual do povo Dakota (nativos americanos que ficaram conhecidos após o filme Dança com os Lobos). Chama-se a “busca da visão”. Neste povo os meninos são introduzidos na vida adulta aos 14 anos quando devem ir ao topo de uma montanha e passam dias sem comer. A fome intensa provoca visões que trazem mensagens do mundo dos espíritos e vão orientar a vida de cada uma daquelas crianças. Além das alucinações por forme, os meninos enfrentam o medo, pois eles ouvem leões urrando e se movimentando na escuridão. De volta à tribo o feito dos garotos é comemorado. Porém, a partir daquele dia, durante dois anos, eles não podem falar com suas mães. É um exercício muito difícil porque os filhos são muito apegados a elas. Mas, para esse povo, se o menino entrar em contato com a mãe logo após passar pelo ritual da vida adulta, sentirá uma forte atração pela infância e cairá no mundo das mulheres, não crescendo nunca mais. Dois anos depois, uma nova cerimônia reúnem mães e filhos. Agora eles já são considerados homens e a recompensa de suas mães, por este grandioso desprendimento, é a certeza de que seus filhos se tornaram adultos respeitadores, fortes e confiáveis.
Lindo, não? Muito valioso uma mãe entender a hora certa de deixar seu filho crescer, envolvido em valores e verdades que o levem a um caminho enriquecedor.

Por isso, mamães de meninos, lembrem-se das mães do povo Dakota e, na hora certa, pratiquem o desprendimento. E não se preocupe: eles não precisam passar fome ou medo. É só soltá-los um pouquinho, deixar que façam suas próprias escolhas e não os deixem acomodados.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Um "bom dia" no elevador vale quantos "likes" no seu post?


Pense na cena: você chega na fila do elevador e diz bom dia para as pessoas que já estão ali. Ninguém responde. Você entra no elevador e novamente diz bom dia para os que já estão lá dentro. Um ou dois respondem, porém ninguém levanta os olhos do celular para ver quem foi a pessoa que os cumprimentou. 


Esta não é uma cena difícil de imaginar porque está cada dia mais comum. Os “brinquedos” da vida moderna, travestidos em celular, smartphones, tablets e afins, certamente facilitaram as nossas vidas e não há nada de errado com eles. O ponto é outro: nós simplesmente esquecemos as regras mais básicas de educação e, portanto, de relacionamento quando estamos entretidos com nossos brinquedos.

Mais complexo ainda: perdemos o poder de observar o que está a nossa volta. De sorrir olhando nos olhos de um desconhecido. De bater um papo despretensioso com alguém que não conhecemos. Como se aquelas máquinas em nossas mãos fossem tão ou mais fundamentais quanto o ar que respiramos. E atire a primeira pedra quem nunca fez isso. É um hábito generalizado que ultrapassa todas as fronteiras: pessoal, profissional, país, idade, status social, gênero.

Uma pena perdermos esta capacidade de ver o que está a nossa volta, não é? Assim ficamos cada vez mais isolados, longe, distantes. Depois reclamamos de solidão, apesar dos nossos 1322 amigos nas redes sociais. Isso não é uma crítica ao contexto de mundo em que vivemos. Mas, até por isso, precisamos lembrar que um sorriso, às vezes, salva o dia de uma pessoa. Uma conversa traz a solução de um problema e desejar bom dia pode significar tanto quanto os 15 likes no seu último post. 

Que tal tentar, apenas uma vez ao dia, entrar num elevador sem estar com o(s) celular(es) na mão e desejar bom dia? Sorrir para a primeira pessoa que cruzar seus olhos? Puxar conversa com a primeira pessoa que encontrar? Esteja preparado para ser o único a fazer isso, mas alguém tem que começar, né? Lembra daquela história sobre o rapaz que jogava as estrelas do mar da areia de volta para o oceano? É a mesma coisa.


Estrelas-do-mar

Era uma vez um escritor que morava em uma tranquila praia, junto de uma colônia de pescadores. Todas as manhãs ele caminhava à beira do mar para se inspirar, e à tarde ficava em casa escrevendo. Certo dia, caminhando na praia, ele viu um vulto que parecia dançar. Ao chegar perto, ele reparou que se tratava de um jovem que recolhia estrelas-do-mar da areia para, uma por uma, jogá-las novamente de volta ao oceano.
“Por que está fazendo isso?”- perguntou o escritor.
“Você não vê! – explicou o jovem – A maré está baixa e o sol está brilhando. Elas irão secar e morrer se ficarem aqui na areia”.
O escritor espantou-se.
“Meu jovem, existem milhares de quilômetros de praias por este mundo afora, e centenas de milhares de estrelas-do-mar espalhadas pela praia. Que diferença faz? Você joga umas poucas de volta ao oceano. A maioria vai perecer de qualquer forma”.
O jovem pegou mais uma estrela na praia, jogou de volta ao oceano e olhou para o escritor.
“Para essa aqui eu fiz a diferença…”
Naquela noite o escritor não conseguiu escrever, sequer dormir. Pela manhã, voltou à praia, procurou o jovem, uniu-se a ele e, juntos, começaram a jogar estrelas-do-mar de volta ao oceano.
Sejamos, portanto, mais um dos que querem fazer do mundo um lugar melhor. Sejamos a diferença!

Autor Desconhecido