Mostrando postagens com marcador movimentoshumanos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador movimentoshumanos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Um pardal


A dica do finde esta semana é muito simples, mas vai fazer muito bem aos corações. Falamos a semana inteira sobre o delicado equilíbrio das relações entre mais e filhos, portanto, nada mais justo do que fazer um convite para celebrar exatamente isso. 

A proposta é levar seus pais (ou só o pai ou só a mãe ou ambos) para um gostoso passeio. Só vocês, se possível, sem celulares e outras traquitanas. 

Pode ser dar uma volta numa praça, sentar num banco e lá ficar. Não olhando para o relógio com vontade de ir embora cuidar da vida, mas acreditando que a vida está exatamente ali. Falem sobre coisas diferentes, pergunte sobre a vida deles, se mostre interessando. Tenha uma ótima conversa e agradeça por estar ali. 

Se quiser mostre a eles o vídeo abaixo e agradeça pela paciência que tiveram para ter criar.

Uma semana cheia de paz fraternal para todos nós. 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A medida da autoridade


Outro dia meu filho me deu uma grande bronca porque eu e meus irmãos não conseguimos fazer minha mãe ir ao médico. Soube que meu sobrinho havia feito a mesma coisa com meu irmão. Respondi que não era tão simples assim e perguntei o que ele imaginava que poderíamos fazer? Obrigá-la? Levá-la a força? Ele me respondeu: “Faça como você faz comigo: às vezes eu não quero ir num lugar e você me diz que, neste assunto, não tem espaço para discussão. Eu não quero ir, mas vou”.

Apesar do assunto ser a minha mãe – e estar levando muito a sério a reclamação dele, por alguns segundos, me dei o direito de respirar aliviada. A resposta dele indicava que existe um respeito conquistado por meio da minha autoridade como mãe. Autoridade, eu disse. Autoritarismo é outra coisa. Aliás não estaríamos tendo a conversa que narrei acima se eu fosse uma figura autoritária para ele. Confesso que uma dos maiores dilemas que enfrento como mãe é saber a medida certa entre o diálogo, a negociação e o limite. Existe sempre uma briga interna dentro de mim entre o ceder e o limitar. Portanto, saber que temos este equilíbrio é muito bom. Sempre peço discernimento ao universo para que este caminho continue assim.

Também sempre tive nos meus pais a figura de autoridade, embora não tivesse a metade da coragem do meu filho em questionar. Mas só percebi o quanto a autoridade dos meus pais era um porto seguro para mim, quando de fato perdi isso. Foi muito dolorido, mas vou tentar descrever: sempre busquei na minha mãe uma conselheira. Ela é (era) enérgica, firme, uma mulher até bem mais agressiva do que eu. Mas o outro lado desta mulher é a proteção e o grande coração aberto para acolher os filhos. Era muito bom buscar nela o conforto para os meus dilemas. Porém, há uns três anos atrás, passei por uma destas dificuldades que temos como nossos filhos no início da adolescência e, pela primeira vez, recorrer a minha mãe não adiantaria de nada. Ela está doente, uma doença que escurece a mente, que a deixa longe do presente. Me dei conta que não tinha mais como contar com minha mãe para amenizar o medo que estava sentindo daquele momento. Foi difícil para mim aceitar.

O que me confortou, depois de aceitar esta nova condição, foi o fato de saber que o exemplo dela existia dentro de mim e ele poderia me guiar para encontrar o próprio equilíbrio entre eu e meu filho. Não é a mesma coisa, mas já era muita coisa. Digo isso porque tenho muito amigos que não tiveram isso. Muitos tiveram pais bem mais amigos que os meus, companheiros que aparentemente se afinavam muito mais do que eu e minha mãe, por exemplo. Quando era jovem até sentia uma certa inveja disso. Mas hoje reconheço que prefiro ter a figura de pais que souberam impor limites a pais que era amigões de “farra” comigo.

É difícil ter esta dimensão porque me considero amiga do meu filho. Me sinto aberta e disposta a dialogar com ele. Quero compreender seu ponto de vista e quero poder ter ele presente em minha vida. Mas isso não significa que quero e, principalmente, que saberei tudo da sua vida. Como adolescente que é sei a importância do seu espaço e respeito muito isso. Também não significa que ele possa fazer tudo que queira.

E quanto a minha mãe e a cobrança dos netos para que eu e meus irmãos sejamos mais enérgicos com ela?  Pois a outra via dessa estrada, confesso, que ainda estamos aprendendo a fazer. É bem difícil obrigar aquela mulher teimosa a fazer qualquer coisa a contragosto. Estamos buscando o melhor caminho e somos aprendiz. Nossos filhos, ao que parece, estão nos ensinando algumas coisas  com a atitude linda de querer proteger a “vorinha” – que é como eles chamam minha mãe. Lindo, não? Difícil, porém lindo.

Vorinho e vorinha! Assim, carinhosamente, meu filho e meus sobrinhos
 chamam meus pais.  O desenho foi feito pelo meu sobrinho Gustavo Malucelli
 e está num quadro de anotações, no escritório do meu pai já faz quase 10 anos.
 Ele nunca deixou que apagassem.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Filhas e filhos: as verdadeiras diferenças


Quero começar com trechos de cartas escritas por pais e endereçadas a Mariateresa Zattoni e Gilberto Gillini. As mesmas foram transformadas em temas do livro escrito por eles com o título original  I Genitori si interrogano (tradução brasileira: Os pais se perguntam... A narração como proposta de mudança).  Lá vai:


(...) Ainda bem que tenho Davi, meu filhão de dez anos. Carmela, de oito, é farinha de outro saco. Não liga para nada, é preguiçosa, não move uma palha por ninguém. Já Davi é muito sensível, inteligente, é meu consolo. Pedi a Deus um filho como ele e fui atendida.

Tenho um filho de dez anos, Eugênio, que para mim transformou-se num transtorno, no sentido que vivo mal comigo mesma por causa dele. Entre outras coisas, há um ano e meio dei à luz a sua irmãzinha, que cresce bem alegre, o oposto dele, coitadinho. (...) . Desde que a irmã nasceu ele fica o máximo de tempo fora de casa. Sei porque age assim; é para não ver a alegria de Ana Rosa, que cresce como uma flor. (...) Minha preocupação é que só eu entendo o que Eugênio sente e não mais sei o que fazer para ajudá-lo.

Minha filha Silvia está me levando a loucura. Não posso reclamar de nada, nem do colégio, porque este ano, como das outras vezes, chegará em casa aprovada. Não faço outra coisa a não atender à suas ordens. (...) Cansei de lhe dizer que tenho minhas exigências e que ela tem que aprender a respeitá-las, pois já está crescida e poderia muito bem ajudar um pouco em casa e não se sentar a mesa e torcer o nariz.

Que um simples pai azulejista com um uma professora muita ativa resolva pegar a caneta e escrever-lhe pode parecer um absurdo. Mas sinto-me exasperado. “Se você vive descascando laranja para ele, o que vai fazer da vida sozinho”, digo a ela, às vezes.




Ontem falamos que diversas questões que levam os pais a gostar de forma diferente de um filho para outro e a maioria das histórias acima comprova exatamente isso, usando exemplos muito práticos sobre o tema. Mas algo muito mais preocupante aparece como similares nos diferentes relatos. Você consegue perceber? Sim, todas as narrações falam de filhos (homens) coitadinhos e no, contraponto, temos filhas (mulheres) que são “farinhas de outro saco”- arrogantes e egoístas.

Não é a primeira vez que abordamos este tema, (vide Filhos hoje, homens amanhã e  Amor de mães e filhas, um delicado equilíbrio), mas sempre me impressiono com os relatos que ouvimos nos diálogos do projeto Movimentos Humanos. O tema, como sempre menciono, gera discussões fortes e polêmicas. As mulheres, principal e invariavelmente, falam das diferenças de criação entre elas e seus irmãos homens. É inegável que se trata de um padrão.

Sempre falo que filhos não vêm com manual de instrução e certamente não é possível acertar sempre no que diz respeito a educação. Mas é impressionante ver como mães não conseguem perceber o que fazem com seus filhos, que mais tarde viram exatamente os homens que tanto rejeitamos. Assim como também me parece estranho mães agindo como adolescentes perante as filhas, numa grande queda de braço para decidir quem tem poder nesta relação.

A grande lição que tiro de histórias como as que ilustram o início do texto é como cada indivíduo faz parte do sistema familiar em que está inserido. A experiência que cada um terá nesse sistema vai acompanhá-lo vida afora. Que grande responsabilidade! Mas não há como fugir. É uma relação tão entrelaçada entre os indivíduos que nelas sem encontram, seja na função de pais ou de filhos – ou mesmo ambas, que não há outro caminho se não conviver com ela (seja encarando o assunto, seja deixando guardado debaixo do tapete). Obviamente profissionais qualificados podem ajudar. Literaturas especializadas e com boa reputação também! Mas só nossos corações podem nos dizer e aceitar, humildemente, que precisamos entender para mudar o curso da relação pais e filhos. É trabalhoso, puxado e depende muito do quanto conhecemos a nós mesmos.

Mas é muito bom pensar que meninas podem crescer fortes e com estima equilibrada se encontrar na mãe uma autoridade e não uma autoritária que entra na sua energia competitiva. E o meninos? Ah! Os meninos! Que mundo maravilhoso pode se abrir para eles, um novo tempo mesmo, em que possam viver sem a sombra de ter que ser os machos provedores ou molengas bobos sem personalidade. Depende de nós, pais de hoje, que isso aconteça.



domingo, 13 de outubro de 2013

Nossos pais, nossos espelhos para agir melhor.

Uma das coisas que mais me surpreendem nos estudos que realizamos é perceber quanto as pessoas não notam a relevância das crenças paternas e maternas na sua vida e o quanto o exemplo de ambos, os guia.

Entrevisto um número consistente de pessoas ao longo do ano graças aos estudos da behavior. Pessoas comuns ou excepcionais, tanto faz, na hora de falar de si há sempre um grau considerável de ilusão. Engraçado como contam de seus pais e depois da vida deles e acham que estão falando de vidas muito distintas; porém para mim, na maioria dos casos, essas vidas são a releitura moderna da mesma história.

As múltiplas formas de autoconhecimento ajudam a perceber o quanto as crenças familiares e figuras paternas dirigem a nossa vida. Com essa consciência é possível escolher o que iremos incorporar e o que iremos abandonar. Conclui que os mais iludidos são aqueles que acham que se conhecem bastante e não precisam de ajuda. As pessoas que melhor se conhecem, e consequentemente estão mais harmonizadas com elas próprias (leia os posts da semana passada), deixam constantemente a dúvida estabelecida. Sabem que qual uma cebola, a cada descoberta uma camada é retirada mas logo em seguida aparecerá outra. 

Vamos iniciar a semana discutindo um pouco a herança vinda da mãe e do pai. Já discutimos aqui que somos produtos de nossos valores que geraram crenças que conduzem nossas atitudes e atos. Esses valores são transmitido dia a dia, segundo a segundo pelos nossos pais. Incluo aqui aqueles que optaram por abandoar seus filhos. Independente do motivo, estes deixam marcas tão profundas que vejo homens e mulheres tentando superar esse sentimento de abandono por uma vida inteira. 

A visão de mundo que possuímos devemos aos nossos pais ou as figuras que os representam nas nossas vidas. Seguimos essa visão e avaliação do mundo quase que rigorosamente. Alguns de tão apavorados de ser iguais aos seus pais, correm para ser o oposto. Todos tentamos ser o espelho ou negar o espelho. Nossos pais são nossa principal referência.

Pense agora no seus pais. Liste virtudes e defeitos de cada um. Analise as opções que fizeram na vida em relação a família, casamento, filhos, profissão, trabalho, desenvolvimento, crença religiosa... e me diga: o quão próximo ou distante você está? 

Se for corajoso pergunte a três pessoas que o conhecem bem e compare as respostas.
Pense: que tipo de companheiro/ companheira você escolheu? sabe me dizer porque? Lembre, nossas escolhas amorosas refletem muito do que pensamos de nós. Que tipo de trabalho realiza hoje? como lida com as finanças? como lida com a família? com lida com seu lazer?

Quanto mais observamos com lucidez nossos pais, mais poderemos aprender de nós. Poderemos trazer de volta coisas lindas deles que abandonamos pelo caminho só para ser do contra e deixar para atrás crenças que só nos fazem repetir a sina da infelicidade que eles por ventura, carregam.

Para sermos livres e felizes precisamos fazer o exercício do espelho com a história de vida de nossos pais e assim escolher o nosso próprio destino.

Deixo vocês com a foto de minhã mãe, que especialmente nos últimos 2 anos veio perto de mim para eu não fugir do meu espelho.

Boa semana para todos. 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Divirta-se. Ponto final.


Falamos a semana toda sobre a busca da nossa verdadeira identidade e da jornada que se faz no retorno a nós mesmos. Batemos arduamente na tecla de que não existe outra forma de se fazer isso se não acolhendo a nós mesmos e indo para o nosso interior. Falamos ainda que as ferramentas que se usam para isso é uma opção de cada um. Não existe certo ou errado. 

Hoje, dia da nossa dica do finde, fazemos um convite para uma tentativa de se interiorizar. Não busque um nome para isso ou um sentido. Trate como uma grande brincadeira – o que realmente é, inclusive no espaço físico já que amanhã, sábado dia 12, é o dia das crianças aqui no Brasil! Você pode fazer isso sozinho ou em um grupo de amigos que sejam íntimos. Mas só convide pessoas caso tenha certeza de que não irá se sentir desconfortável. A ideia é a seguinte:



Compre muuuuuitos doces. Doces de diversos tipos, "tranqueirinhas" mesmos. Balas, chocolates, pé de moleques, o que quiser. Lembre-se de quais eram os doces da sua infância. Se já não forem muito comuns, tentem encontra-los, como se você estivesse numa expedição em busca de um tesouro. Compre também alguns brinquedos: coisas simples, nada sofisticados. Pequenas gracinhas. Reúna tudo que comprou no centro do espaço em que você vai fazer o exercício. Coloque uma música suave ao fundo e comece a andar sem rumo pelo espaço em que está. Ande sem direção, às vezes em círuculos, às vezes não. Depois de alguns minutos andando em silêncio e respirando profundamente, comece a falar coisas sem sentido. Não precisa nem ser palavras, apenas sons. Emita sons. Isso se chama guibberish ou, em português, algaravias. Faça isso por 20, 30 minutos no máximo. Pode não parecer, mas esta é um técnica de cartase profunda e fazer mais do que este tempo, para quem não está acostumado, pode ser incômodo. Depois sente-se no chão confortavelmente, coloque sua mão direita no coração e busque, dentro de você, a figura de uma criança. Imagine-se passeando com esta criança por alguns minutos. Descreva mentalmente tudo que você e a criança estão fazendo – quanto mais detalhes melhor. Por fim, convide-a para comer os doces e brincar com você. Divirta-se comendo e brincando sem culpa por algum tempo. Uma vez na vida, comer algumas bobagens, não irão lhe fazer mal. E se sentir ridículo por estar brincando vai lhe tirar da seriedade do dia a dia. Depois fique em silêncio pelo tempo que conseguir. Reflita como você se sentiu durante este tempo, que lembranças teve, tristezas, alegrias e fique um pouco neste espaço, com você, simplesmente entregue a você. 

Um fim de semana bem infantil para todos nós.



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Fomos condenados a ser feliz!

Sacrifício! Esta é a palavra que escolhi para explicar a sensação que se tem ao perceber que você está de volta ao seu verdadeiro eu. Pode parecer uma estranha palavra para associar a algo tão pleno. Mas não é. Sacrifício, muitas vezes confundido com renúncia ou abandono, na verdade, tem seu verdadeiro significado no tornar sacro. É disso que estou falando.


Durante toda esta semana temos debatido sobre o caminho que se segue na busca do que verdadeiramente somos. O tão desejado reencontro com nossa essência, nosso ser uno, inteiro, que faz parte de um todo muito além de nós mesmos. Já deve ter ficado claro que não há outro jeito de se fazer isso, a não ser por meio do voltar-se para dentro, seja com que ferramenta for e, ao fazermos isso, inevitavelmente somos conduzidos (quase induzidos) a perceber que tudo aquilo que não faz sentido em nós tem que deixar de existir . Toda dor, toda raiva, toda mágoa precisa ser oferecida para forças que vão além de si, como um chamamento sagrado – o sacrifício. Não significa não mais sofrer, não mais trilhar o caminho humano do crescimento, das provações. O que muda é a forma como lidamos com nossas vidas, sensações, emoções e com o outro. O que não é verdadeiramente essencial  passa a ter um peso menor, nossa integridade nos equilibra, nos deixa num estado de serenidade que passa a ser a força que nos sustenta, que nos dá força para ir além. É como o rio que flui aceitando o caminho, agradecido pela existência.

Jamais vou esquecer a primeira vez que senti esta sensação. Me refiro a ela como paz interior e a qual a Nany chamou de contentamento interno, no seu texto que abriu a semana aqui. Era época da faculdade e eu estava saindo do campus quase vazio. Uma tempestade se formava no céu e uma rajada de vento me fez parar e ouvir o barulho das árvores. Fiquei parada ali, paralisada eu diria, submersa em mim. Não estava em outro lugar, não estava numa experiência transcendental. Nada disso. Estava ali. Totalmente, completamente, inteiramente ali. Até hoje esta lembrança me traz lágrimas aos olhos e sinto o vento batendo no meu rosto. Fazia meses que buscava por isso e, simplesmente, naquele momento, havia finalmente me conectado comigo mesma. Não há palavras que possam expressar exatamente a sensação. É algo muito individual. Uma citação do alquimista Morienus de Roma, eremita cristão do século VII, diz:

O portal da paz é sobremaneira estreito e ninguém poderá atravessá-lo senão pela sua própria alma.

É lindo, é divino e é humano. Por mais estranho que isso possa parecer. E é como o pianista Benjamim Taubkin diz no depoimento abaixo: "Parece que fomos condenados a ser feliz!”



terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sou um elefante que pode voar


Imagine uma mulher bonita, cheia de postura, que anda com as costas eretas deixando claro que se trata de uma pessoa segura e cheia de si. Imagine ainda que esta mulher passe até uma certa arrogância no olhar e uma atitude de eu sou capaz de resolver meus problemas sozinha.  Agora imagine que você tem poderes especiais e pode olhar além daquela postura de confiança e, lá dentro, você se surpreende ao ver uma menina insegura, confusa, frustrada e cansada de carregar esta máscara de mulherão forte, confiante, poderosa. Não é incomum. Pelo contrário, é bem mais fácil que isso ocorra com a maioria das mulheres com este perfil. Como diz Jung, em O Homem e seus Símbolos

“Todos nós podemos sofrer uma dissociação e perder nossa identidade. Podemos ser dominados e perturbados por nossos humores, ou tornarmo-nos insensatos e incapazes de recordar fatos importantes que nos dizem respeito".

Falar de identidade e autoconhecimento é sempre algo fascinante, porém, na prática, ainda é um dos grandes dilemas que enfrentamos no cotidiano.  Sou uma entusiasta do assunto porque durante anos senti que vivia com um “mal-estar” permanente dentro de mim. Era algo que não conseguia explicar e convivia com isso em silêncio sob a máscaras que variavam da boa menina comportada a mulher inatingível. Confundi, muitas vezes, com questões físicas tais como sou gorda, sou feia, sou estranha, sou grande, sou cabeçuda. Outras vezes a tentativa de explicar a sensação era emocional: sou tímida, sou burra, sou inteligente demais, sou incapaz, sou incompreendida. E era mais do que óbvio que, ao achar que tinha descoberto o motivo para tamanha inadequação, agia de alguma forma para tentar amenizar o eterno mal estar. Porém nada do que eu fazia era suficiente. 

Lembro, por exemplo, depois de passar boa parte da vida me achando gorda,  um dia decidi que ia ser magra. Tinha na cabeça um objetivo de peso e não tinha médico ou personal trainer que me convenceria de que o peso que eu considerava ideal era, na verdade, até perigoso para a minha saúde. Quando finalmente cheguei no meu objetivo a frustração foi enorme, pois, a única coisa que descobri é que não tinha encontrado a felicidade por causa disso e ainda sentia a megera sensação de incômodo dentro de mim.  Foi então que me convenci que não existia outro caminho se não o de encarar, de fato, o que era isso que tanto me incomodava. Não com possibilidades vindas de crenças desgastantes, mas com um trabalho sério e focado no autoconhecimento. O que não fazia da mulher que existia dentro, a mesma que existia fora? Quais eram os sinais que eu emitia para o mundo e que não faziam o menor sentido para a minha essência? Um difícil exercício que durou anos. Na verdade nem acabou. Nunca acaba. E o pior: conhecer apenas, não significa abandonar os padrões. O que só dá mais desespero num primeiro momento, pois viver a sua verdade plenamente, muitas vezes, requer uma certa dose de coragem e ousadia. 

Mas a sensação descrita ontem aqui no blog de que além da felicidade passageira existe algo maior que é o contentamento dentro de cada um é vigoroso, pleno, maravilhoso. Vale a pena a busca. E como buscar? Outro dia uma amiga me perguntou isso. Respondi a ela com toda sinceridade: É impossível dizer qual o melhor método. É preciso encontrar aquele que melhor se adequa a cada um. Já fiz de tudo nesta vida: de psicanálise a aura-soma, reike, radistesia, acupuntura, ioga, dança corporal, coaching emocional, etc etc etc. Muitos não passei de algumas sessões, outros continuo fazendo. Mas esta sou eu: curiosa, aberta ao holístico, ao alternativo. Se vai funcionar para a minha amiga? Provavelmente sim e não. Ela precisa experimentar. A única coisa que não podemos fazer é ficar lá, parada, sentido todo a inadequação de estarmos vivendo algo que não somos e nada fazer. Os caminhos se abrem para aqueles que se buscam. Esta é a única certeza que levo no coração.

Termino contando uma historinha que nunca sai da minha cabeça. Um terapeuta me perguntou, certa vez, com que animal eu achava que me parecia ao andar. Eu, sem hesitar, respondi: Sou um elefante!  Pesado, desengonçado, sem charme.  Hoje acho esta resposta engraçada. Não que agora eu consiga me sentir o animal mais encantador do planeta (preciso me trabalhar muito ainda para isso), mas consigo, ao menos, achar que posso ser um pássaro para voar livremente e ir aonde eu desejar. É bom ser pássaro. O elefante, volte e meia, ronda os meus pensamentos e aí penso que poderia ser um elefante voador! Tenho a impressão que o terapeuta acharia que enlouqueci de vez. Mas é divertido ter a leveza de rir de mim mesma. Sinal de que, pelo menos, uma coisa eu aprendi: não preciso ser tão rigorosa e séria o tempo todo. Brincar comigo mesma já foi um grande passo.