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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Diálogo e "combinados" - a medida da relação

Quando eu me separei, há quase 15 anos, não tinha maturidade suficiente para entender que devia explicações para algumas pessoas que, de certa forma, estavam envolvidas neste relacionamento. Especialmente meus pais e meus sogros. Soube, algum tempo depois, que minha sogra ligou para a minha mãe perguntando o que havia acontecido. Ela respondeu dizendo que eu era uma mulher difícil e impetuosa, que sempre fazia as coisas do meu jeito sem dar muitas explicações e, ainda por cima, eu não era exatamente uma dona de casa, pois trabalhava muito. Quando ela me contou isso fiquei muito magoada. Hoje eu entendo o que ela disse e até concordo. Em partes. 

A verdade é que eu não era mesmo dona de casa, pois eu tinha uma profissão e trabalhava – o que era uma realização para mim, mas também uma necessidade já que ajudava a pagar as contas da casa. Também era mandona e, realmente, nunca parei para avaliar que em uma vida a dois é preciso fazer “combinados”, ou seja, fazia mesmo o que queria sem perguntar ao meu marido o que ele achava. Com a maturidade que os anos me trouxeram, percebo que eu nem tentei salvar meu casamento. Simplesmente deixei o que não estava funcionando para trás e fui em busca da minha felicidade. 

Mas esta é apenas parte da história. A outra parte teria que ser contada pelo meu ex-marido e, sinceramente, eu não conheço a versão dele, embora tenhamos um ótimo relacionamento hoje em dia. Por isso não posso – e não devo – falar por ele, mas ainda hoje me pergunto se havia algo que poderia salvar o nosso casamento.  Ele era um homem honesto, íntegro, trabalhador. Um bom pai também. Mas eu realmente tinha dentro de mim um ânsia de querer muito mais do que brincar de casinha. Eu queria ganhar o mundo, ser surpreendida, viver algo quente, arrebatador. Mas a nossa relação era morna e não havia diálogo. Não posso dizer que ele se sentia um pouco como uma “majestade”, conforme nossa reflexão no início da semana, mas acredito que se eu fosse uma mulher com menos desejos e mais conformada com a vida, ele teria ficado muito bem ao meu lado, recebendo os agrados de esposa carinhosa, que reconhecia o esforço que ele fazia. O problema é que eu não via esforço. E nós tínhamos apenas vinte e poucos anos! 

Refletindo sobre isso, tantos anos depois, acredito que fomos vítimas de um momento em que homens e mulheres estavam perdidos sem saber ao certo o papel de cada um. Mas por algum motivo, eu me recusei a ficar naquele jogo de faz de conta. A vida levou cada um de nós para onde deveríamos ir. Mas teria sido bem legal se eu já soubesse todas as coisas que sei hoje. Talvez eu não tivesse sido a moça impetuosa que minha mãe descreveu para minha sogra como motivo da separação. Tudo está certo no melhor dos mundos afinal. E quem sou eu para dizer que não.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sua majestade, o relacionamento equilibrado!


Street art fotografada na fachada
de um restaurante em Moema. Sem a assinatura do artista
Toda vez que a Nany traz  fatos que colocam em perspectiva o homem atual e seus dilemas sinto um certo desconforto. Especialmente nas seguintes palavras: 

Só que esse novo rei não quer reinar sozinho pelo ônus que isso significa. E ai, ele quer o posto de majestade, tendo seus desejos atendidos, mas sem a responsabilidade de ser o provedor e o sábio. Fácil, não é? O caminho encontrado por aqueles que não lutam pela retomada do poder, no poder para, é virar quase um filho da mulher. E a mulher meio maternal, e meio porque lá no fundo acredita que mulher é superior ao homem, vira uma grande companheira-mãe que trata de proteger, dirigir e perdoar o seu homem.

Sabendo que se trata da verdade estudada por ela nos projetos da Behavior, e portanto, absolutamente crível, fico sempre me questionando de onde vem este meu incomodo. Não sou exatamente uma mulher maternal e por isso descarto o fato de achar que o homem tem que vestir o seu manto de rei e, nós, as protetoras, temos que passar a mão na sua cabeça. 

Tenho comigo que o que mexe comigo tem a ver com o meu filho. Sempre me questiono sobre o que é necessário fazer para criar um homem para uma nova era. Como trazer o seu lado positivo deste momento, deixando de lado os padrões que delimitaram os últimos séculos? Não é nada fácil. Especialmente no que diz respeito aos relacionamentos amorosos. Óbvio que sempre tentei ensinar meu filho a ser respeitoso, integro e absolutamente sincero com as meninas. Também tento passar meus próprios valores mostrando a ele que, numa relação, todos temos que compartilhar o lado bom e ruim, o ônus e o bônus e que, definitivamente, não há o melhor, o maior, o mais importante.

Ainda é cedo para ver se ele vai construir relações maduras e de companheirismo tão necessária neste novo momento, mas sou otimista e acredito que exista luz no fim do túnel. Vejo isso nas relações que meus sobrinhos mais velhos estão construindo com suas companheiras. Percebo entre eles algo mais equilibrado do que na minha geração ou em gerações anteriores, onde a menina tinha ou um papel de subserviente ou de superiores a todos os machos. Nem sinto a majestade tão destacada neles, embora, obviamente ainda aparecem naquele jeito mais despojado que a maioria dos homens possuem. E claro que ainda existem diferenças (ainda bem!), mas elas não estão relacionadas a quem manda ou a quem tem mais poder sobre o outro.  

Existe um outro lado desta questão que me parece também fundamental: a forma como as jovens mulheres vão lidar com este novo homem. A evolução vai ser feita pela caminhada lado a lado e o equilíbrio da relação passa pela aceitação mútua – não vejo ainda uma outra forma. Neste ponto meu coração fica bem apertado, pois sinto o quanto é fundamental o papel dos pais atuais nisso tudo. Não existe milagre e nossos jovens só poderão romper com os antigos padrões se nós, os pais, trabalharmos os alicerces necessários para isso.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Para positivar o homem na sociedade devemos acabar com o conceito de homem-majestade. Será que estamos prontos?

Vamos falar esta semana dos homens. Dizem que mulher adora falar de homem, eu creio que mulher adora falar de tudo, mas sem dúvida homem é um tema interessante  e instigador, sobretudo para aquelas que estão na busca do relacionamento-romântico-feliz, tema que abordamos a semana passada.

Tenho, nos meus estudos, buscado algo que positive plenamente o homem nestes tempos contemporâneos. Algo que faça ele ter real orgulho da sua identidade masculina e que não seja o poder antigo - poder sobre, tema de nossas últimas semanas. Mas ainda não encontrei, embora tenhamos alguns caminhos interessantes se configurando. A importância de positivar o homem tem a ver com a necessidade de equilibrara as forças masculinas e femininas, que acredito seja necessária para facilitar a formação do relacionamento romântico feliz.

frase na parede da Casa do Saber em São Paulo
Porque é tão difícil positivar a nova identidade masculina? porque ela, ao ter sido o lado público do velho modelo mental e social, esta ligada diretamente ao poder antigo e a forma como vemos o que é bom e o que é ruim nesse cenário. Mulheres e homens estão em processo de transição para o novo modelo social, e embora desejemos o novo - e o novo poder, poder para - ainda estamos presos às estruturas de valores e crenças que nos atam ao velho mundo. Assim, na hora do julgamento, da incerteza pegamos o baú de valores e crenças, o abrimos e nos vestimos dele para operar.

Especificamente sobre os homens, por milênios ocuparam lugar de destaque na sociedade. Isso fez com que acreditasse que possuem um quê de majestade. De direitos diferenciados. Alguns até acreditam mesmo que deveriam ser tratados como reis. E a busca pelo novo papel, novo espaço para os homens passa, infelizmente, de alguma maneira por retomar esse privilégio.

Só que esse novo rei não quer reinar sozinho pelo ônus que isso significa. E ai, ele quer o posto de majestade, tendo seus desejos atendidos, mas sem a responsabilidade de ser o provedor e o sábio. Fácil, não é? O caminho encontrado por aqueles que não lutam pela retomada do poder, no poder para, é virar quase um filho da mulher. E a mulher meio maternal, e meio porque lá no fundo acredita que mulher é superior ao homem, vira uma grande companheira-mãe que trata de proteger, dirigir e perdoar o seu homem.

Fez sentido para você? Vamos falar mais disso esta semana?

Boa semana para todos e que este início de primavera traga bons e prósperos frutos para todos!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Com amor, compreensão e respeito fica fácil


Outro dia um amigo me ligou dizendo que precisava de um conselho: ele estava totalmente oprimido e infeliz na empresa onde trabalhava. Tentou dizer a mulher que ia pedir demissão naquele dia e ela, conhecendo os impulsos do marido, ameaçou dizendo que se separava dele, caso ele tomasse essa decisão assim, sem planejamento. 

Ele estava entre a cruz a espada, já que não tinha nenhuma intenção de se separar. Mas também não conseguia encontrar mais forças para continuar seguindo em frente. Como era a semana do carnaval, e ele trabalha numa cidade e mora em outra (onde fica a esposa e os filhos), disse a ele para respirar fundo e nada fazer durante esta semana. Ele teria muitos dias de folga pela frente para conversar pessoalmente com a mulher. Eu tinha certeza que ela entenderia que o caso era bem sério e que eles encontrariam uma solução juntos, movido pelo amor que sentem um pelo outro. 

Foi legal porque ele fez isso e depois do carnaval pediu uma oportunidade na empresa, para trabalhar como fornecedor deles - e não mais como empregado. Eles estão negociando os termos desta parceria ainda, mas ele está mais feliz e casado. Isso me faz pensar que para tudo existe uma solução. Só é preciso mesmo agir como adultos.

Eu gosto sempre de ter uma história positiva para contar sobre o tema da semana, pois fica mais fácil quando não só a gente identifica com o tema, mas sente - profundamente - que sempre existe uma saída. 

Nada precisa ser tão difícil e doloroso. Precisa ser trabalhado, ter amor, compreensão e responsabilidade, claro. Mas é sempre mais fácil quando vemos luz no fim do túnel. Concordam?

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Homens irresponsáveis, casamentos difíceis

A Nany iniciou o tema da semana falando sobre o ser humano e a pergunta: o que é ser homem para você? Ela termina o texto chamando a atenção para o lado masculino da irresponsabilidade e que nada tem a ver com a leveza (abordado na semana passada) . 

Vem bem a calhar, pois na última sexta-feira, num happy hour com uma amiga, falávamos sobre este assunto. Ela estava admirada com o fato de ter uma quantidade grande de amigas que passavam pela mesma situação: o marido irritou-se com o trabalho e simplesmente demitiu-se, sem nenhum preparo emocional, estrutural ou financeiro. E agora, a maioria, está há pelo menos 6 meses sem trabalhar. Alguns casos chegam há um ano ou dois. E lá estão as suas lindas esposas ralando de trabalhar e segurando a casa financeiramente. 

Isso lembra a minha mãe. Pois é! Estamos falando de um atitude bem masculina, mas a primeira coisa que me passa pela cabeça é uma frase que minha me disse várias vezes na vida: “No trabalho (e na vida também) a gente tem que aturar e engolir muitos sapos, não adianta pedir demissão a cada contrariedade". Quando era menina (recém saída da faculdade), época em que ela me falava isso, achava um absurdo este pensamento. Para mim, as pessoas não devem viver infelizes e pressionadas. Interpretava aquela afirmação como um “aceite a opressão”. Hoje entendo o real significado da frase. Ninguém precisa ficar num emprego oprimido, que faça mal, que tire o sono, a saúde e a vontade de viver. Mas se você é pai (ou mãe), têm filhos que dependem de você, financia uma casa (que é o lar da sua família), têm bocas para alimentar é preciso um certo planejamento para sair de um emprego. É a parte ônus da história, afinal. 

Conheço uma meia dúzia de casos de homens que passaram dois, três, dez anos se organizando financeiramente. Além disso buscaram ajuda de um coach ou headhunter para mudar a situação e foram a luta em busca de nova uma oportunidade. Alguns tornam-se empreendedores. Demorou para conseguirem o que queriam? Como disse: dois, três, até dez anos. Mas eles tinha um plano definido e uma meta que os alimentavam. 

Infelizmente foram poucos os que eu eu vi fazendo isso. A grande maioria faz como os amigos da minha amiga. Tolerância zero: não aguento o meu chefe, a minha "firma", o trânsito, sabe-se lá mais o que e simplesmente dizem adeus sem nada planejar. Alguns nem comunicam a mulher antes! Fácil quando a esposa trabalha e passa a sustentar a casa. Na verdade era para ser algo equilibrado, onde os dois trariam o melhor para a família e, de repente, lá está ela correndo atrás e o bonitão bagunçando a casa. Porque ainda tem isso, né? Muitos até aceitam inverter os papéis por um tempo, cuidam da casa e das crianças. Mas já ouvi histórias absurdas de maridos que, sem emprego, não são capazes de ajudar nem com as crianças e ainda deixam a casa um caos. E depois ainda querem sexo à noite e reclamam que a mulher não tem desejo. Difícil, né? 

Agora tem um grupo de casais que combinaram isso: o marido não tem mais condições físicas e emocionais para continuar e muito menos para planejar uma saída a médio/longo prazo. Infelizmente o mundo corporativo tem feito isso com muitas pessoas que se deixam intoxicar por ambientes, muitas vezes, nocivos. Então a mulher entende e ambos combinam um período onde ela vai assumir financeiramente a casa e ele vai atrás de ajuda para se fortalecer e voltar a ativa. De fato eu conheço apenas uns dois ou três casais nesta situação, mas isso prova que dá para ter uma relação madura quando ambos estão dispostos e abertos ao bônus e ônus que a vida nos traz. 



segunda-feira, 7 de abril de 2014

O que é ser homem para você?

Assisti ao filme Noé esta semana e há duas definições do que é ser homem ditas no filme: a primeira vem de Noé que diz para seu filho "seja homem e faz o que tem que ser feito" dentro de um contexto de abrir mão dos sentimentalismos e preferências pessoais para fazer aquilo que é necessário em prol de algo maior. 

A outra definição vem de outro personagem - e vou me deter nas descrições para não estragar o filme para quem não o viu ainda - que após ver um jovem matar um homem disse: "agora você é um homem". Duas definições bastante distintas para a mesma coisa: ser homem.

Há aqueles que consideram ser homem (e embora no filme refere-se ao gênero masculino, aqui coloco no sentido de ser humano), "matar" alguém. Usam do poder - seja econômico, cultural, educacional ou físico - para se impor. Como se isso os torna-se valentes. Precisar que o outro se renda é para quem ainda não entendeu que a vida não é uma competição e que ser alguém e estar na terra feliz não depende do outro. Na psicologia se compreende que a competição como estado de espírito demostra imaturidade, porque se depende do outro para ser alguém. A competição é comum nas crianças e nos adolescentes e se espera que num adulto saudável, que vai ganhando consciência de seu próprio ser e com isso segurança, diminua até desaparecer.

A consciência de quem se é pode ou não trazer orgulho de si mesmo. Uma das crenças que me regem é que a força que nós sustenta nos momentos mais difíceis da vida, vem de saber que desenvolvemos a capacidade interna de dominar nossos próprios desejos e vontades. E isso se desenvolve na medida que fazemos "o que tem que ser feito" como disse o personagem Noé. Sem crise, sem sacrifício, sem nos vitimizar.

Assumir e cumprir nossas responsabilidades. Mesmo que a gente não goste de fazer. Parar de achar que a vida nos deve e que temos direito - irrestrito - ao prazer e só fazer o que nós gostamos. Querer só o bônus e não o ônus de estar vivo é virar adulto.

Quando fazemos o que é certo para nós, não necessariamente o que é bom para nós, costumamos ficar mais alegres conosco. Orgulhosos de quem somos e não necessariamente de quem representamos ser. E ai, penso eu, é que nos tornamos homens.

Infelizmente, os homens, e aqui sim eu me refiro aos do sexo masculino, têm misturado os momentos de escape e leveza (positivos) do qual falamos a semana passada com a irresponsabilidade. Criados muitas vezes se achando que o mundo está para eles, como o reino para o rei. Negam-se a fazer o lado chato da vida. Ao não assumir suas responsabilidades, deixam de cumprir a suas promessas dadas. Com isso, vai se gerando um processo de auto-estima alicerçado no ego - se achar muito importante - que o deixa fraco e frágil. A roda do espiral negativo está armada. Quanto mais fraco ele se sente, mas ele se alicerça na ilusão de sua auto-importância.

Tema denso, após Noé. Mas vale pena refletir sobre valores mais profundos esta semana. Para quem se interessar, aqui vai um pouquinho do filme.







Boa semana a todos. 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Divirta-se. Ponto final.


Falamos a semana toda sobre a busca da nossa verdadeira identidade e da jornada que se faz no retorno a nós mesmos. Batemos arduamente na tecla de que não existe outra forma de se fazer isso se não acolhendo a nós mesmos e indo para o nosso interior. Falamos ainda que as ferramentas que se usam para isso é uma opção de cada um. Não existe certo ou errado. 

Hoje, dia da nossa dica do finde, fazemos um convite para uma tentativa de se interiorizar. Não busque um nome para isso ou um sentido. Trate como uma grande brincadeira – o que realmente é, inclusive no espaço físico já que amanhã, sábado dia 12, é o dia das crianças aqui no Brasil! Você pode fazer isso sozinho ou em um grupo de amigos que sejam íntimos. Mas só convide pessoas caso tenha certeza de que não irá se sentir desconfortável. A ideia é a seguinte:



Compre muuuuuitos doces. Doces de diversos tipos, "tranqueirinhas" mesmos. Balas, chocolates, pé de moleques, o que quiser. Lembre-se de quais eram os doces da sua infância. Se já não forem muito comuns, tentem encontra-los, como se você estivesse numa expedição em busca de um tesouro. Compre também alguns brinquedos: coisas simples, nada sofisticados. Pequenas gracinhas. Reúna tudo que comprou no centro do espaço em que você vai fazer o exercício. Coloque uma música suave ao fundo e comece a andar sem rumo pelo espaço em que está. Ande sem direção, às vezes em círuculos, às vezes não. Depois de alguns minutos andando em silêncio e respirando profundamente, comece a falar coisas sem sentido. Não precisa nem ser palavras, apenas sons. Emita sons. Isso se chama guibberish ou, em português, algaravias. Faça isso por 20, 30 minutos no máximo. Pode não parecer, mas esta é um técnica de cartase profunda e fazer mais do que este tempo, para quem não está acostumado, pode ser incômodo. Depois sente-se no chão confortavelmente, coloque sua mão direita no coração e busque, dentro de você, a figura de uma criança. Imagine-se passeando com esta criança por alguns minutos. Descreva mentalmente tudo que você e a criança estão fazendo – quanto mais detalhes melhor. Por fim, convide-a para comer os doces e brincar com você. Divirta-se comendo e brincando sem culpa por algum tempo. Uma vez na vida, comer algumas bobagens, não irão lhe fazer mal. E se sentir ridículo por estar brincando vai lhe tirar da seriedade do dia a dia. Depois fique em silêncio pelo tempo que conseguir. Reflita como você se sentiu durante este tempo, que lembranças teve, tristezas, alegrias e fique um pouco neste espaço, com você, simplesmente entregue a você. 

Um fim de semana bem infantil para todos nós.



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Fomos condenados a ser feliz!

Sacrifício! Esta é a palavra que escolhi para explicar a sensação que se tem ao perceber que você está de volta ao seu verdadeiro eu. Pode parecer uma estranha palavra para associar a algo tão pleno. Mas não é. Sacrifício, muitas vezes confundido com renúncia ou abandono, na verdade, tem seu verdadeiro significado no tornar sacro. É disso que estou falando.


Durante toda esta semana temos debatido sobre o caminho que se segue na busca do que verdadeiramente somos. O tão desejado reencontro com nossa essência, nosso ser uno, inteiro, que faz parte de um todo muito além de nós mesmos. Já deve ter ficado claro que não há outro jeito de se fazer isso, a não ser por meio do voltar-se para dentro, seja com que ferramenta for e, ao fazermos isso, inevitavelmente somos conduzidos (quase induzidos) a perceber que tudo aquilo que não faz sentido em nós tem que deixar de existir . Toda dor, toda raiva, toda mágoa precisa ser oferecida para forças que vão além de si, como um chamamento sagrado – o sacrifício. Não significa não mais sofrer, não mais trilhar o caminho humano do crescimento, das provações. O que muda é a forma como lidamos com nossas vidas, sensações, emoções e com o outro. O que não é verdadeiramente essencial  passa a ter um peso menor, nossa integridade nos equilibra, nos deixa num estado de serenidade que passa a ser a força que nos sustenta, que nos dá força para ir além. É como o rio que flui aceitando o caminho, agradecido pela existência.

Jamais vou esquecer a primeira vez que senti esta sensação. Me refiro a ela como paz interior e a qual a Nany chamou de contentamento interno, no seu texto que abriu a semana aqui. Era época da faculdade e eu estava saindo do campus quase vazio. Uma tempestade se formava no céu e uma rajada de vento me fez parar e ouvir o barulho das árvores. Fiquei parada ali, paralisada eu diria, submersa em mim. Não estava em outro lugar, não estava numa experiência transcendental. Nada disso. Estava ali. Totalmente, completamente, inteiramente ali. Até hoje esta lembrança me traz lágrimas aos olhos e sinto o vento batendo no meu rosto. Fazia meses que buscava por isso e, simplesmente, naquele momento, havia finalmente me conectado comigo mesma. Não há palavras que possam expressar exatamente a sensação. É algo muito individual. Uma citação do alquimista Morienus de Roma, eremita cristão do século VII, diz:

O portal da paz é sobremaneira estreito e ninguém poderá atravessá-lo senão pela sua própria alma.

É lindo, é divino e é humano. Por mais estranho que isso possa parecer. E é como o pianista Benjamim Taubkin diz no depoimento abaixo: "Parece que fomos condenados a ser feliz!”



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O mais gostoso é a diversão do percurso


O caminho do autoconhecimento que nos leva ao (re)encontro de nós mesmos, como falamos ontem, é uma das grandes conquistas que o homem contemporâneo, tão afastado de si mesmo, pode alcançar. Não importa exatamente o caminho que se permita trilhar para isso, mas seja qual for, é preciso coragem e determinação. Afinal, a busca da nossa verdadeira identidade fará com que deixemos para trás padrões, máscaras, crenças e também pessoas que já não se sintonizam mais com quem somos. Isso tem lá suas consequências, é verdade. Assusta, faz com que muitas pessoas se percam pelo caminho, recuem. Se pudesse dar um único conselho a quem está iniciando a jornada seria: NÃO DESISTA. O que você vai encontrar lá na frente é algo tão maravilhoso que vale a caminhada. 

Ouvi uma história muito profunda que ajuda e estimula este momento em que nos lançamos em busca do que somos. É sobre o povo naskapi que até hoje habitam um dos lugares mais selvagens do planeta: as florestas da península do Labrador, no leste do Canadá. Eles são caçadores simples que vivem em grupos familiares isolados e tão separados um dos outros que nem se quer criaram costumes, crenças ou rituais tribais. Isso significa que este povo tem uma vida muito solitária e tem que contar apenas com as suas próprias vozes interiores para se guiar. Sua alma é seu principal companheiro e eles a chamam de “mista’peo” ou “grande homem”. Mista’peo habita o coração do homem e é um ser imortal.  A contrapartida por esta sempre em conexão direta com o seu grande homem, para os Naskapi, é obedecer as instruções que são transmitidas por meio da sua intuição, sonhos e pela expressão artística. Mentiras e desonestidades afastam o grande homem do reinado interior do indivíduo, enquanto a generosidade, amor ao próximo e aos animais atraem-no e lhe dão vida. Conhecer esta história me ajudou a compreender porque precisamos de instrospecção e até mesmo do caminho solitário, muitas vezes, rumo ao nosso reencontro.  Mas certamente o que iremos encontrar e o que descobriremos, assim como os naskapi, é a certeza que estaremos íntegros e prontos para vivenciarmos umas das experiências mais maravilhosas da vida que é a plenitude.

Um outro lado deste reencontro - e que também pode parecer dolorido e difícil num primeiro momento - é a sombra. Quanto mais luz, mais sombra. É inevitável. O se conhecer faz com que a gente passe, inevitavelmente, por tudo que somos, querendo ou não. Se não for assim, não é de verdade, não é pleno e você estará apenas se enganando. Recorro ao capítulo que coube a Dra. Von Franz no livro O Homem e seus Símbolos, em que ela ilustra, por meio da orientação de Jung, todo o processo da individuação. Sobre a sombra especificamente, ela diz:

Depende muito de nós mesmos a nossa sombra tornar-se nossa amiga ou inimiga. Na verdade, ela se parece com qualquer ser humano com que temos que nos relacionar: segundo as circunstâncias, algumas vezes cedendo, outras resistindo, outras ainda dando-lhe amor. A sombra só se torna hostil quando é ignorada ou incompreendida.

Esta explicação, na medida do possível, é reconfortante para seguirmos em frente, afinal, como a própria filosofia do Jung nos diz: o homem só se torna um ser integrado, tranquilo, fértil e feliz quando (e só então) o seu processo de individuação está realizado, quando consciente e inconsciente aprendem a conviver me paz e completando-se um ao outro.

No mais é divertir-se no percurso!