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quinta-feira, 6 de março de 2014

Fuga ou celebração?


O outro lado da diversão é a fuga. É aquela que não se trata de uma celebração, de sair para encontrar amigos queridos, comemorar algo ou ir dançar pelo simples prazer de remexer o corpo. De certa forma, em maior ou menor frequência todos fazemos isso de vez em quando. Nem sempre estamos preparados ou com disposição de enfrentarmos nossos “monstrinhos" (que muitas vezes estão acompanhados da solidão). Então vamos em busca de algo que vem de fora, que nos faça esquecer a realidade por algumas horas. 




Claro que nestes momentos estamos inconscientes e distantes do sentir, caso contrário, não entraríamos nessa. Como diz os versos do cantor e compositor Lobão:

A cidade enlouquece em sonhos tortos
Na verdade nada é o que parece ser
As pessoas enlouquecem calmamente
Viciosamente, sem prazer


A jornalista Kika Salvi relatou no seu livro Kika, a estranha uma série de passagens sobre os momentos de fuga e solidão que viveu após a sua separação, especialmente nos fins de semana que suas filhas estavam com o pai. Em uma de suas narrativas ela diz: 

Estava no samba-rock dominical; meus ouvidos são só zunidos depois do exorcismo. Oscilei muito lá dentro, não sei se embalada pela sensualidade da música ou pela vibração pulsante do lugar. Senti impulsos levianos à autocomiseração. Primeiro, animação: não se pode ficar indiferente à energia contagiante do lugar. Depois, assanhamento, diante de  hordas de homens bonitos, ou quase-homens (dada a tenra idade dos moçoilos), cheios de volúpia e urgência. Daí, ponderação, com um grande “por quê” no pensamento - afinal, já não terei passado da idade de me atirar irrefletidamente à demanda dos sentidos? E, por último, judiação - me senti patética naquele meio, tentando fazer de conta para mim mesma que sou capaz de ser feliz à revelia de tudo o que estava passando. Então o show se amorteceu e latejou o desconforto (estou bêbada…).

Quem nunca, afinal, teve seus momentos de fragilidade e não buscou na diversão pela diversão a solução para um momento de paz? A sorte, eu acredito nisso, é que o tempo é sábio e nos torna mais conscientes de que fuga não é, na realidade, diversão. Além disso, o corpo já não tão jovem, tem lá seus limites. Como diz meu companheiro: Hoje em dia não fico mais de ressaca. Fico donte. E como adoecer não é exatamente o que se quer, a gente pensa duas vezes se é melhor a fuga ou o encontro com os nossos monstrinhos mesmos. 

Isso não significa que não é bom entregar-se a momentos gostosos e animados. Divertir-se é fundamental, mas antes de começar pergunte para o seu coração: isso é fuga ou celebração? Tenha certeza que ele lhe dará a resposta.



segunda-feira, 3 de março de 2014

Distraia-se, coloque sua mente em off

Diversão é desviar a atenção. Aprendi isso quando buscava a diferença de sentido entre as palavras diversão e prazer. Muito por conta disso, considero hoje a diversão fundamental para nossa saúde física, mental, espiritual e emocional. Especialmente para aqueles que o estado de alerta os acompanha dia e noite. Estar em alerta constantemente gera tensão, que por sua vez, no meu entendimento, é uma das maiores causas de estresse. Muitas pessoas pensam que o estresse vem do acúmulo de tarefas, mas creio que acúmulo de tarefas pode causar estafa, cansaço, mas não necessariamente estresse.

Quando chega a época do carnaval parece que é exatamente isso que queremos, nos distrair, desviar nossa atenção. O espírito do carnaval busca deixar a censura no limite mais baixo para poder liberar todas as tensões e nosso demônios internos. Isso é extremamente saudável. É uma pequena fuga que alivia as tensões, que relaxa o corpo para continuar pós carnaval de volta a batente, preferencialmente, reorganizados. É uma nova partida através de um novo status.

Só que para isso tudo funcionar devemos ter consciência do processo e não somente ir como gado fazendo parte da manada. Uma coisa é eu deliberadamente me divertir, soltar “minhas feras” - como diz a música que deixamos para você hoje - e liberar os pontos de tensão, para distrair minha mente e poder retomar os mesmos pontos sob uma outra ótica, um outro estado de espírito. E, outra, bem diferente, é um fazer dessa distração uma fuga mal organizada para me distrair da dor que a transição está causando em mim. Neste último caso, minha mente não relaxa, continua lá no fundo agindo, sabendo que estou me auto-enganando, e a volta à vida, neste caso, costuma ter um sabor amargo e enjoado, como a ressaca de bebida de baixa qualidade.

É sobre este ponto que gostaríamos de abordar nesta semana de ressaca, o quanto usamos a distração como fonte de alívio ou de auto-engano neste momento de desestruturação.


Boa ressaca de carnaval para todos nós.



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Estou com medo de errar o título!


Ontem resolvi andar de ônibus. Preciso diminuir os custos e, afinal de contas, não é exatamente o maior sacrifício que já fiz na vida. Tudo bem que não era hora de pico e nem eu ia para algum lugar tão distante assim. Mas depois de décadas sem andar de transporte coletivo, estava meio apreensiva. Na verdade estava com medo de bancar a tola por não saber coisas básicas de quem é obrigado a fazer isso todos os dias. Fiz algumas perguntas "idiotas" para a minha funcionária que, obviamente, riu de mim e disse que queria ser uma mosquinha para me ver no ônibus. Pensei em me ofender por um instante, mas achei que era um bom momento para deixar de me apegar a bobagens deste tipo.  Resolvi focar na minha decisão de ir mesmo bancando a tonta e lá fui eu. Deu tudo certo e eu me senti confiante. 

Depois, já de volta, tomando um sorvete próximo a minha casa, pensei que era uma bobagem eu me sentir mais confiante por ter feito isso. Então me lembrei que todo mundo anda falando que eu preciso pegar mais leve comigo mesma, ser mais gentil e amorosa comigo, blá blá blá e resolvi ficar feliz com isso. Percebi como tenho medo de errar. Tudo na minha vida é pautado por isso. Se acerto, sou feliz. Se erro, sou infeliz, muito infeliz. Isso atrapalha a vida, não é mesmo? 

Conheço mais pessoas como eu, do que pessoas que simplesmente metem as caras em tudo e, se errar, tudo bem, seguem em frente felizes da vida e agradecendo pelo tanto que aprenderam com o erro. Na verdade a gente só fica feliz com o erro muuuuuito tempo depois. Normalmente quando já estamos "acertando" de novo. 

Todos esses devaneios me fizeram enxergar que a maioria das pessoas desejaria começar um nova vida ou pelo menos modificar uma coisa ou outra - ou muitas. Mas ninguém quer conviver com o erro, então…ficamos aqui, quietinhos, vivendo nossa vidinha e pronto. E aquela coisa: "todo mundo quer ir para o céu, mas ninguém quer morrer". 

Resta saber: o que é certo afinal? Fazer esta pergunta para alguém como eu é quase um desafio mental porque vou lá nos conceitos aristotelicos para trazer a pouca filosofia que tenho e discorrer entre o bom senso, a ética e essas coisas todas que me fariam pensar que estou sendo tão inteligente e que as pessoas vão me adorar por isso. Mas, sabe, estou meio cansada da minha mente que vive fazendo este joguinho. Ando pensando em coloca-la num navio para a Sibéria e deixar que ela fique por lá congelando por um tempo. Será que sem a minha mente para me perturbar eu cometeria mais erros? Será que eu conseguiria rir mais de mim mesma, ser mais leve e divertida? Por enquanto, como a mente ainda não foi despachada, o que me vem é que eu ando ficando louca. Mas posso, finalmente, estar errada!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Ao gênio da lâmpada eu pediria o que mesmo?

Eu gosto muito do Nando Reis. Da figura dele, do seu talento como poeta, das suas músicas. Uma das canções que eu mais gosto chama-se Hoje Mesmo. Uma parte da letra diz assim: 

Se um gênio perguntasse quais seriam os meus três desejos o primeiro: pediria ao tempo voltar pra trás pra te ver aos dezesseis anos. Não há idéia que alcance ou seja parecida com a imagem da menina esguia, a bolsa a tiracolo e as pedras só pesando. Pois ela nunca irá jogá-las!
O seguinte, segundo desejo, emoldurar no céu o seu sorriso que eu pensei que nunca mais pudesse reencontrar. O filho é que cria a mãe
E o último, complexo, honesto e genuíno, amar sem precisar da dor, querer também sem magoar. Tocar seu corpo. Hoje mesmo.

Eu enxergo os desejos declarados na música como algo tão sincero, essencial, vindo do fundo da alma. 

Quando a  Nany nos provocou esta semana com a pergunta sobre o que queremos para o início do resto de nossas vidas (conforme ela conta no texto anterior) confesso que fui tomada por um sentimento sufocante, uma sensação  de mau estar, físico e emocional, que perdurou por todos os dias que se seguiram.

Primeiro ficou tudo muito escuro e não conseguia nem pensar em algo que me empolgasse. Para alguém que sempre teve certeza do seu propósito, não ter ideia do que quer fazer é quase como não ter ar para respirar. Não existe chão, base. E agora? Será que cheguei naquele lugar onde só o que importa mesmo é o que se recebe no fim do mês e pronto? Fiquei paralisada. 

Depois, já refeita da escuridão, comecei a listar desejos. Eu quero trabalhar numa empresa super legal, poder cuidar da comunicação corporativa e assim, cuidar das pessoas. Eu quero trabalhar numa empresa inovadora, num lugar super descontraído, onde as pessoas são felizes e não estejam sempre com caras de desespero. Eu quero trabalhar de metrô (sim, essas coisas acontecem neste processo!). Eu quero abrir uma empresa e fazer coisinhas lindas que toquem os corações das pessoas. Eu quero escrever coisas verdadeiras que ajudem outras pessoas a entenderem o que se passa com elas. Eu quero ser rica e só trabalhar como voluntária em ONGs. Essa continua sendo uma opção a se considerar, caso o gênio da lâmpada apareça me perguntando sobre os meus 3 desejos!

Brincadeiras a parte é muito interessante ver o jogo mental que fazemos para tentar resolver nossos dilemas rapidamente e ir pensar logo no jantar ou no próxima série que vamos começar a assistir. E aí entra o Nando Reis. Os desejos que listei acima, certamente um pouco exagerados, não são desejos da alma, sinceros, genuínos.

Enquanto eu escrevia este texto começou a chover e eu saí correndo para fechar as janelas. Na última delas eu olhei para fora e me perguntei qual foi a última vez que eu parei para ver a chuva. Fiquei ali, parada, tentando apenas me conectar com cada gota d’àgua que caía. Uma bênção, afinal, poder fazer isso. Me veio que apesar de todos os processos físicos, químicos, biológicos, meteorológicos que envolvem a chuva, aquela água ali, só caindo, é a coisa mais simples do mundo. Chegou a hora de chover e, pronto, chove. Um ato simples e grandioso ao mesmo tempo.



Bingo! Finalmente tenho uma resposta que faz sentido: por enquanto a única coisa que eu quero, para o início do resto da minha vida, é voltar a ser simples como a chuva. Quando eu conseguir isso, tenho certeza, saberei o que eu quero fazer daqui para frente. Sem sacrifícios e sem dilemas. Pode demorar, vai precisar de  paciência e, enquanto isso, não há mal nenhum em fazer o que sempre fiz com tanto amor e dedicação. É um primeiro passo. Bem pequenino, mas já é melhor do que a sensação de paralisia que descrevi no início da história.



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O que você quer para o início do resto de sua vida?

Temos falado muito em mudanças e inícios porque elas estão pipocando por todos os lados. As pessoas falam conosco, nos escrevem inbox... a maioria trata sobre ciclos acabando, ciclos começando, mudanças nem sempre suaves que estão vivendo. Como todo fim dá início ao novo, fizemos esta semana dentro da behavior a pergunta título deste post: o que você quer para o início do resto de sua vida?

Brincadeira com o filme o primeiro ano do resto de nossas vidas de Joel Schumacher. O título pode parecer sério demais mas como dizemos no post ciclo da vida, a etapa anterior marca de forma indelével como será a próxima; a pergunta tinha o sentido de trazer à consciência a nossa intenção maior.

Ao invés de um check list "eu quero..." a intenção maior significa para nós uma palavra que representa um conceito, um Sentir sobre o que vai conduzir nosso novo ano. Quando dizemos eu quero e fazemos um check list, se por um lado organiza e facilita a ação, por outro formata nosso Sentir e é isto que, na behavior, estamos tentando superar, evoluir. Acreditamos que neste momento seja importante abrir mão das formas para se abrir realmente ao novo.

As formas tomaram uma relevância nas nossas vidas que, assim como o mental, ao invés de ser um veiculo, uma ferramental, ganharam o status de ser per si. Dentro da behavior acreditamos que um dos grandes movimentos humanos é o que chamamos de desestruturaçãoÉ um movimento que implica desenformar. A palavra está associada à culinária e significa "tirar da fôrma". 

Pois então, vamos sair da fôrma? do molde que criamos ao nosso redor e não nos nos permite viver o novo?

Deixo vocês com o trailer oficial do filme que mencionei. Desculpem estar em inglês mas creio que ele traz o espírito do filme. Para quem se interessar, na internet podem ter acesso ao próprio filme. É um filme de 1985 que me marcou bastante pelo momento que vivia naquele ano, recém chegada ao Brasil iniciando a faculdade.   
  




sábado, 1 de fevereiro de 2014

O ciclo da vida


Reiniciamos nosso blog de 2014 no último dia do ano da Serpente porque como aprendi de uma sábia amiga "é no anoitecer do último dia que tudo se inicia". 

O ciclo da vida entrou naturalmente na minha pauta de reflexão quando saía de um hospital e, entanto esperava o carro, observava as pessoas em minha volta: velhos senhores e seus filhos na estressante rotina de entra-sai de hospitais no fim de vida; mulheres grávidas algumas jovens, outras nem tanto; bebês recém nascidos no colo de pais abobalhados com o milagre da criação. Me foquei no bebê e seus pais inexperientes e ao mesmo tempo num senhor de idade avançada, sentado numa cadeira de rodas puxada pelo filho. Difícil compreender que tudo faz parte do mesmo ciclo de vida. 

Nesse ciclo de vida, cada momento vivido com consciência torna-se um degrau para a próxima etapa. E para que a próxima etapa se estabeleça com plenitude, deve-se abrir mão da anterior. Ao mesmo tempo, devemos ter consciência que a nova só é possível porque houve a anterior. É isso que significa a expressão que inicia este post "é no anoitecer do último dia que tudo se inicia". A etapa anterior marca de forma indelével como será a próxima. E a próxima chega quando abrimos espaço para o novo. 

É sobre isto que iremos falar nesta nossa primeira semana do ano do Cavalo para que cavalguemos juntos nos movimentos humanos que todos nós estamos co-criando.

bom final de semana!